segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Gozando à bruta


nick cave . what a wonderful world

O mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se preocuparem demasiadamente
com o facto de a felicidade nem
sempre ser
muito divertida

se as pessoas não se ralarem muito com um
bocado do inferno
uma vez por outra

no preciso momento em que tudo está bem
porque mesmo no céu
não se canta
constantemente

O mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se ralarem com a morte de
outras pessoas
constantemente
ou talvez apenas a morrerem à fome
de vez em quando
o que não será mau de todo
se não for a nós que isso acontece

Oh o mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se ralarem muito
com alguns espíritos mortos
nos postos mais elevados
ou uma bomba ou duas
uma vez por outra
nos vossos rostos virados para
cima

ou outras inconveniências
como aquelas a que a nossa Sociedade
de Marca Registada
está sujeita
com os seus homens de grande
distinção
e os seus homens de grande extinção
e os seus sacerdotes
e outros serviços de patrulha

e as suas várias segregações
e comissões de investigação do congresso
e outras prisões de ventre
das quais a nossa carne tonta
é herdeira

Sim o mundo é o melhor lugar de todos
para fazermos uma porção de coisas como
consagrar-nos à alegria
consagrar-nos ao amor
e consagrar-nos à tristeza
e cantarmos canções graves
e termos inspirações
e nos passearmos
olhando para tudo
e cheirando as flores
e troçando das estátuas
e até pensando
e até beijando pessoas e
fazendo crianças e usando calças
e acenando com os chapéus e
dançando
e indo nadar para os rios
em piqueniques
no meio do verão
e de um modo geralmente geral
«gozando à bruta»

Sim
mas depois no meio de tudo isso
aparece o sorridente
cangalheiro

Lawrence Ferlinghetti

sábado, 8 de outubro de 2016

Mapas

yeah yeah yeahs | maps

Porque buscamos no quotidiano uma estrada
onde se repita o amor e a casa de algum Verão.
Porque a memória tem sinais de trânsito e
às vezes falamos muito e alto quando está
vermelho para recordar, e chamamos os amigos
e de repente fica amarelo sem sabermos como,
e no fim do dia, quando nos deitamos, cai o
verde e tudo avança e as recordações são em
vez do sono, são em vez da vida, são em vez do
verbo. Porque também nós temos montanhas
e rios assinalados e também em nós há
itinerários principais e secundários e ruas que
vão da cabeça aos pés quando a mão desejada
nos percorre como carro de brincar. Porque
também nós exigimos um novo aeroporto
onde pousar a cabeça, ou pelo menos algumas
obras no aeroporto onde desajeitadamente
procuramos aterrar. Porque mesmo com
quatro ou vinte auto-estradas continuamos a ter
o caminho para o tanque onde mergulhávamos
na infância. Porque andamos todos à procura
uns dos outros dentro e fora de quem somos e
parece que nos desencontramos, que paramos
na estação de serviço errada, a 10 km, sempre a
olharmos para o relógio, a 10 km, na direcção uns
dos outros, a 10 km mas na estação de serviço
errada. Porque o limite do corpo é o desenho do
mapa e às vezes apetece rasgar, omitir, estender
a fronteira, mas para isso há a guerra, porque
imediatamente fora desse limite há outros e
outros países invadidos por nós. Porque no fundo
desejamos apenas ser conquistados.
Porque os países conquistados conseguem
mexer no mapa e não ter culpa. Porque os
países conquistados se reconstroem depois da
guerra e antes do recomeço do amor.

Somos um mapa circular, humano e excessivo.

Filipa Leal

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Obrigada






















leonard cohen | chelsea hotel #2

you said, well never mind, 
we are ugly but we have the music


Mostraste-me as fotografias. Disse-te então que a minha memória se esfumou algures num lugar muito distante aonde não consigo chegar neste momento. E tu foste buscar uma grande caixa de papelão onde guardavas bilhetes de concertos, - quando ainda não eram todos iguais e era um orgulho mostrá-los a toda a gente - músicas gravadas em cassetes religiosamente etiquetadas, panfletos de festas às quais calhámos de ir juntos, e os teus cadernos antigos onde eu tinha rabiscado um poema qualquer. Até a caligrafia está diferente, vê lá, tão mais caótica agora. E essas fotografias!, como eu ria tanto, meu deus! Tu tinhas sempre aquele brilho nos olhos que me parecia indestrutível. Éramos tão diferentes naquela época. E eu não consigo acreditar que foste lendo tudo o que escrevi aqui nestes anos que passaram, em silêncio. A memória atraiçoa-nos mesmo, fico feliz por ter à mão este diário mas esqueço-me muitas vezes de que não é só meu. Sabes, no dia em que te encontrei no café tinhas um livro que eu já tinha lido em cima da mesa. Olhavas pela janela enquanto escrevias qualquer coisa nas folhas gastas do caderno. Devias estar a pensar em viagens: o olhar pareceu-me o mesmo, igual, tão sonhador como antes. Foi assim que te reconheci. Também gostei desse livro: a conversa correu a partir daí. Continuo sem conseguir compilar quase dez anos de ausência, num discurso coerente e sem sobressaltos, para te contar o que me aconteceu. Esqueci quase tudo. Mas tu mostraste-me tudo o que tinhas guardado - ainda que doa - para que eu também me lembrasse, contas histórias daquele tempo para que eu recorde tudo outra vez. Aos poucos, as lembranças aparecem. Tínhamos tantos planos: viagens, sonhos por realizar, gargalhadas por tudo e por nada. Tu rias sem fazer barulho, isso eu lembro-me bem. Nunca conheci ninguém que se risse tanto sem fazer qualquer barulho. Achava isso incrível, logo eu, que tinha uma gargalhada tão espalhafatosa. Olha, agora aprendi a rir baixinho, acreditas? E tu já não ris. Apenas com os olhos. Ontem mostrei-te uma música que descobri e que não parei de ouvir o dia todo. Cantei-a pelos corredores daquele edifício cinzento que nos faz reféns dos nossos sonhos: i can be ugly. E tu ouviste, e sorriste sem dizer nada. Hoje de manhã tinha esta música na caixa do correio. E, caramba, nem sequer te tinha dito que vi o documentário da little girl blue fez dois dias hoje e que também contava das noites no chelsea hotel. Deu-me uma vontade incontrolável de voltar a escrever aqui mais uma vez, para depois não me esquecer disto. Se leres, ao menos diz olá. Sabes, é só para dizer que não aguento muito bem tantas coincidências, ou sinais, o que lhe quiseres chamar, na minha vida. Agora já não. Mas isso tu sabes. Olha, e obrigada por tudo. É só. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

I've been alone on this sea for so long / I wanted to touch, I had to feel love / Before these waves took me under




















joan shelley | siren

Apaga a luz quando entrares
e vem ver se em mim ainda se cheira o mar

 Renata Correia Botelho


oh if the pink light of morning
would wash all the demons out of here
i could lie down on your ground
and pull my body near

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Just like a bullet leaves a gun

















tom waits | hold on

Vasculhei as tuas coisas como um detective.
Tentei descobrir porque deixaste de gostar de mim.
Não conseguia reduzir a um só motivo

Uma das minhas gavetas está cheia de tralha tua.
Eu queria arranjar um apartamento maior,
e ter um quarto só para ti.
Iria tornar-se numa espécie de museu.
A tua ausência iria estar em exposição.

A tua fotografia está no armário.
Está ao lado dos livros que li,
e que não tenciono reler.

Hal Sirowitz
(Tradução Maria Sousa)

sábado, 10 de setembro de 2016

Let us go now, my only companion / Set out for the distant skies / Soon the children will be rising, will be rising / This is not for our eyes



nick cave & the bad seeds | distant sky

Suave como o perigo atravessaste um dia
com a tua mão impossível a frágil meia-noite
e a tua mão valia a minha vida, e muitas vidas
e os teus lábios quase mudos diziam aquilo
que era o pensamento.
Passei uma noite colado a ti como a uma árvore de vida
porque eras suave como o perigo,
como o perigo de viver de novo.

Leopoldo María Panero

Nothing really matters when the one you love is gone


nick cave & the bad seeds | i need you

O nosso amor morreu
em extremo mau estado,
vítima de doença prolongada,
que nenhum de nós
era a favor da eutanásia.
Podia ter sofrido menos,
padecido menos,
penado menos,
mas mudámos de opinião
demasiado tarde.

Raquel Serejo Martins

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Encontrei-te

thomas feiner & anywhen | all that numbs you

Encontrei-te em todas as noites que não pude ter-te, que não pude
ver-te, que não pude tocar-te. Encontrei-te porque nunca saíste do
meu corpo, dos meus pensamentos, da minha voz, dos versos má-
gicos que a vida escreve para mim.

Encontrei-te no aroma dos meus cabelos, na lembrança iluminada
do teu último sorriso, e também nessa penumbra quente que um
dia retirei das tuas coxas.
E fiz amor com o silêncio que deixaste.

Encontrei-te no meu olhar perdido, na tristeza das rochas, na infi-
delidade das ondas e no infindável território que a inquietação me
deu a conhecer.

Encontrei-te na procura. Enquanto me doía procurar-te. Enquanto
me desesperava saber de ti, reconhecer-te em tudo, em todos, em
limites, indiferenças, solidões, vazios, secretos entusiasmos.

Encontrei-te debruçada no parapeito onde as crianças cantam com
as vozes luzindo e penetrando em mim, como sempre penetrei em
ti, cheio de coragem e de medos, pesquisador de estrelas, amante
curvado sobre a tua boca, essa estrela húmida que sempre me sou-
be ao vento adocicado da nudez.

Encontrei-te, ainda amarrada em mim, pedindo tudo, não exigindo
mais do que a terra pede à chuva, na embriagante dor das cerejei-
ras que querem florir, como o teu corpo floria em minhas mãos e a
tua voz nos meus ouvidos.

Encontrei-te, sim, sem precisar sequer de procurar-te.

Joaquim Pessoa

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Publicidade enganosa


morrissey | you have killed me

está certo reconheço todas as acusações
menti eu sei sabia desde o princípio
todos o fazemos é a maneira de vender

o produto que queres que te diga não sou
quem andavas à procura sim sou um porco
um grandessíssimo cabrão um filho da puta… mas diz-me

que tem tudo isso a ver com o amor?

Pablo Garcia Casado

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Post-it.

pj harvey | who will love me now?

Triste quando desejo e quando não. Triste quando com um corpo e quando não. Triste quando com o seu sorriso e quando não.

Alejandra Pizarnik