quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Waiting for the miracle













leonard cohen  | waiting for the miracle

Quero de ti o que for simples
um aceno um postal
o teu nome numa concha

Ter apenas isto:
um banco de jardim
onde te esperar
e esperar.

Vasco Gato

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

34 (Cala-te um bocado junto ao mar)








the waterboys | this is the sea

Tem paciência. Estás há 34 anos a dizer
palavras, é natural que te canses
do ouro carregado nos dentes ciganos,
do poema. Cala-te um bocado junto ao mar
já tão cansado de lirismo e de piratas amadores,
exausto de motivos para a fina poluição do verso.
Aluga um moinho, compra umas cerejas frescas,
um salpicão, a vinha do tempo dos avós.
Leva contigo um quilo de castanhas, o disco da primeira separação, o teu par de patins amarelos.
Vê se dormes. É preciso dormir — mais do que calar.
Endireita as costas e a mala breve,
rega suficientemente as plantas que vais deixar morrer,
põe-te na estrada, cala-te um bocado.
E faz-nos, a todos, um favor:
Não escrevas uma linha enquanto estiveres lá.

Filipa Leal

(34 anos e uns meses, vá.)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Cena campestre









unkle | burn my shadow

A casa esperou por nós,
pensamos. O duplo renque de árvores
acena-nos que nos cheguemos. Num sussurro,
o rio vai escorregando cheio
entre as margens.

À hora exacta, o sol vai esconder-se
por trás dos campos. A escuridão
envolve a casa que nos protege.
Acendemos o fogo, bebemos
entre as paredes.

Vendi-me inteira à
segurança e debruço-me da janela.
Dormem cavalos e galos, a água
pisca o olho à lua, e eu a pagar,
sempre a pagar.

Anna Enquist

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Coisas de luz antigas












richard hawley | valentine

Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.

Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:

um namorado sem falar
de amor

(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)

Ana Luísa Amaral

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O amor cru









emily jane white | pallid eyes

Pouco a pouco fomos descobrindo
como se põe sal por cima do silêncio
e água por trás das palavras.

E preferimos calar para dizer a ausência.
E preferimos dizer para temperar a calma.

Mas o amor.
O amor cru.

E já não soubemos que fazer
com o deserto,
com os sinais,
com a sede.

Valeria Pariso

(já não dói.)

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Raw with love













jeff buckley | lilac wine

little dark girl with
kind eyes
when it comes time to
use the knife
I won't flinch and
I won't blame
you,
as I drive along the shore alone
as the palms wave,
the ugly heavy palms,
as the living does not arrive
as the dead do not leave,
I won't blame you,
instead
I will remember the kisses
our lips raw with love
and how you gave me
everything you had
and how I
offered you what was left of
me,
and I will remember your small room
the feel of you
the light in the window
your records
your books
our morning coffee
our noons our nights
our bodies spilled together
sleeping
the tiny flowing currents
immediate and forever
your leg my leg
your arm my arm
your smile and the warmth
of you
who made me laugh
again.
little dark girl with kind eyes
you have no
knife. the knife is
mine and I won't use it
yet.

Charles Bukowski

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Gozando à bruta

nick cave | what a wonderful world

O mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se preocuparem demasiadamente
com o facto de a felicidade nem
sempre ser
muito divertida

se as pessoas não se ralarem muito com um
bocado do inferno
uma vez por outra

no preciso momento em que tudo está bem
porque mesmo no céu
não se canta
constantemente

O mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se ralarem com a morte de
outras pessoas
constantemente
ou talvez apenas a morrerem à fome
de vez em quando
o que não será mau de todo
se não for a nós que isso acontece

Oh o mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se ralarem muito
com alguns espíritos mortos
nos postos mais elevados
ou uma bomba ou duas
uma vez por outra
nos vossos rostos virados para
cima

ou outras inconveniências
como aquelas a que a nossa Sociedade
de Marca Registada
está sujeita
com os seus homens de grande
distinção
e os seus homens de grande extinção
e os seus sacerdotes
e outros serviços de patrulha

e as suas várias segregações
e comissões de investigação do congresso
e outras prisões de ventre
das quais a nossa carne tonta
é herdeira

Sim o mundo é o melhor lugar de todos
para fazermos uma porção de coisas como
consagrar-nos à alegria
consagrar-nos ao amor
e consagrar-nos à tristeza
e cantarmos canções graves
e termos inspirações
e nos passearmos
olhando para tudo
e cheirando as flores
e troçando das estátuas
e até pensando
e até beijando pessoas e
fazendo crianças e usando calças
e acenando com os chapéus e
dançando
e indo nadar para os rios
em piqueniques
no meio do verão
e de um modo geralmente geral
«gozando à bruta»

Sim
mas depois no meio de tudo isso
aparece o sorridente
cangalheiro

Lawrence Ferlinghetti

sábado, 8 de outubro de 2016

Mapas

yeah yeah yeahs | maps

Porque buscamos no quotidiano uma estrada
onde se repita o amor e a casa de algum Verão.
Porque a memória tem sinais de trânsito e
às vezes falamos muito e alto quando está
vermelho para recordar, e chamamos os amigos
e de repente fica amarelo sem sabermos como,
e no fim do dia, quando nos deitamos, cai o
verde e tudo avança e as recordações são em
vez do sono, são em vez da vida, são em vez do
verbo. Porque também nós temos montanhas
e rios assinalados e também em nós há
itinerários principais e secundários e ruas que
vão da cabeça aos pés quando a mão desejada
nos percorre como carro de brincar. Porque
também nós exigimos um novo aeroporto
onde pousar a cabeça, ou pelo menos algumas
obras no aeroporto onde desajeitadamente
procuramos aterrar. Porque mesmo com
quatro ou vinte auto-estradas continuamos a ter
o caminho para o tanque onde mergulhávamos
na infância. Porque andamos todos à procura
uns dos outros dentro e fora de quem somos e
parece que nos desencontramos, que paramos
na estação de serviço errada, a 10 km, sempre a
olharmos para o relógio, a 10 km, na direcção uns
dos outros, a 10 km mas na estação de serviço
errada. Porque o limite do corpo é o desenho do
mapa e às vezes apetece rasgar, omitir, estender
a fronteira, mas para isso há a guerra, porque
imediatamente fora desse limite há outros e
outros países invadidos por nós. Porque no fundo
desejamos apenas ser conquistados.
Porque os países conquistados conseguem
mexer no mapa e não ter culpa. Porque os
países conquistados se reconstroem depois da
guerra e antes do recomeço do amor.

Somos um mapa circular, humano e excessivo.

Filipa Leal

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Obrigada











leonard cohen | chelsea hotel #2

you said, well never mind, 
we are ugly but we have the music


Mostraste-me as fotografias. Disse-te então que a minha memória se esfumou algures num lugar muito distante aonde não consigo chegar neste momento. E tu foste buscar uma grande caixa de papelão onde guardavas bilhetes de concertos, - quando ainda não eram todos iguais e era um orgulho mostrá-los a toda a gente - músicas gravadas em cassetes religiosamente etiquetadas, panfletos de festas às quais calhámos de ir juntos, e os teus cadernos antigos onde eu tinha rabiscado um poema qualquer. Até a caligrafia está diferente, vê lá, tão mais caótica agora. E essas fotografias!, como eu ria tanto, meu deus! Tu tinhas sempre aquele brilho nos olhos que me parecia indestrutível. Éramos tão diferentes naquela época. E eu não consigo acreditar que foste lendo tudo o que escrevi aqui nestes anos que passaram, em silêncio. A memória atraiçoa-nos mesmo, fico feliz por ter à mão este diário mas esqueço-me muitas vezes de que não é só meu. Sabes, no dia em que te encontrei no café tinhas um livro que eu já tinha lido em cima da mesa. Olhavas pela janela enquanto escrevias qualquer coisa nas folhas gastas do caderno. Devias estar a pensar em viagens: o olhar pareceu-me o mesmo, igual, tão sonhador como antes. Foi assim que te reconheci. Também gostei desse livro: a conversa correu a partir daí. Continuo sem conseguir compilar quase dez anos de ausência, num discurso coerente e sem sobressaltos, para te contar o que me aconteceu. Esqueci quase tudo. Mas tu mostraste-me tudo o que tinhas guardado - ainda que doa - para que eu também me lembrasse, contas histórias daquele tempo para que eu recorde tudo outra vez. Aos poucos, as lembranças aparecem. Tínhamos tantos planos: viagens, sonhos por realizar, gargalhadas por tudo e por nada. Tu rias sem fazer barulho, isso eu lembro-me bem. Nunca conheci ninguém que se risse tanto sem fazer qualquer barulho. Achava isso incrível, logo eu, que tinha uma gargalhada tão espalhafatosa. Olha, agora aprendi a rir baixinho, acreditas? E tu já não ris. Apenas com os olhos. Ontem mostrei-te uma música que descobri e que não parei de ouvir o dia todo. Cantei-a pelos corredores daquele edifício cinzento que nos faz reféns dos nossos sonhos: i can be ugly. E tu ouviste, e sorriste sem dizer nada. Hoje de manhã tinha esta música na caixa do correio. E, caramba, nem sequer te tinha dito que vi o documentário da little girl blue fez dois dias hoje e que também contava das noites no chelsea hotel. Deu-me uma vontade incontrolável de voltar a escrever aqui mais uma vez, para depois não me esquecer disto. Se leres, ao menos diz olá. Sabes, é só para dizer que não aguento muito bem tantas coincidências, ou sinais, o que lhe quiseres chamar, na minha vida. Agora já não. Mas isso tu sabes. Olha, e obrigada por tudo. É só. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

I've been alone on this sea for so long / I wanted to touch, I had to feel love / Before these waves took me under










joan shelley | siren

Apaga a luz quando entrares
e vem ver se em mim ainda se cheira o mar

 Renata Correia Botelho


oh if the pink light of morning
would wash all the demons out of here
i could lie down on your ground
and pull my body near