domingo, 19 de novembro de 2017

I'm living in an age that laughs when i'm dancing with the one i love but my mind holds the key











peter gabriel | my body is a cage

O teu corpo vive hoje dentro do espelho onde se perdeu o meu

Al Berto

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

So many lifeless empty hands, so many hearts in great demand










azure ray | november

De que lado viste chegar
o outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Do silêncio











peter murphy | a strange kind of love

Então por um momento os dois se apagaram na doce escuridão tão profunda que eles eram mais escuros que a escuridão, por uns instantes ambos eram mais escuros que as negras árvores, e depois tão escuro que, quando ela tentou erguer os olhos até ele, só pôde ver as ondas selvagens do universo acima dos ombros dele, e então ela disse: Sim, acho que eu também te amo.

Clarice Lispector

domingo, 22 de outubro de 2017

O amor, agora, coincide por fim com a inteligência







scout niblett | kiss

O tempo é chegado
em que já não faz mal a vida que se perde,
em tão só
uma lâmpada inútil, e a inveja se esquece.
Um tempo de perdas prudentes, necessárias,
não um tempo de chegar, mas de partir.
O amor, agora, coincide por fim com a inteligência.
Não estava longe, não era difícil.
É um tempo que não me deixa mais do que o horizonte
como medida de solidão.
Um tempo de tristeza tutelar.

Joan Margarit

Estamos tão pouco onde estamos










cat power | good woman

Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro

fechamos os olhos, sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos

mas estamos tão pouco
onde estamos

José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Escreve-me poemas que me possam matar










radiohead | fake plastic trees

– eu fumo
– eu escrevo poemas que se podem fumar
– não és o que eu procuro
– sou o alto mar
e vejo o tempo começar na sombra de uma janela que se abre na fotografia em que estás tu o Borges o Cortázar Rua Florida Richmond ao fundo e em que te estou a dizer sou o alto mar e
– posso não ser o que tu procuras
– eu nunca soube chorar, por isso espero a chuva
– a chuva não é deste planeta, não me deves esperar que não regresso ao quarto feito de regressos a que regresso sempre, sexto andar, livros com poemas a fazer de cabeceira, poemas no chão a fazer de chão e a anunciar a chuva que sempre se demora por vir de longe, e nós bem longe também da Rua Florida onde nunca chovia e se chovia não era chuva e se era chuva não nos podia tocar
– tu existes ainda que eu precise de te inventar
– tu já me inventaste agora não existo
e não durmo embora continue a comer e não durmo e sobretudo bebo até as noites mais inteiras e vejo-te mesmo quando não te vejo e bebo para que me fales ao ouvido coisas que eu não consigo perceber e não foste a única porque houve outras mas foste a única que ainda te vejo até em certas palavras que são partes do teu corpo que eu não consigo tirar de mim
– estou aqui
e estás aqui mas já não sei pronunciar o teu nome só a primeira inicial que se repete uns passos mais à frente como se a terra fosse toda mar e o mar fosse todo eu e sinto frio e espero que o frio se esqueça de mim e abro de novo a janela da fotografia que não me reconhece e toco a chuva que veio de longe e não é deste planeta com a ponta dos dedos desço por ela e abro totalmente esta janela que não me reconhece e a chuva traz-me à cama onde ainda dormes entre os meus papéis confusos e não isto não são lágrimas embora o sal
– nos teus olhos vejo coisas que só existem nos teus olhos
– demoraste ou quiseste fazer-me esperar
– eu não sou quem se deva esperar
– provavelmente vou esperar-te até depois da morte
– a morte é só um outro tempo, um outro modo de dizer as coisas
e eu não sou quem se deva esperar, que me acabo antes à porta de um prostíbulo, Paris ou Buenos Aires, como um poeta deve acabar
– nunca te disse mas acho que não te posso deixar, detesto demasiado a tua poesia
– tu detestas toda a poesia
– na verdade não detesto toda a poesia, só tenho medo
– na verdade eu não faço bem poesia, só quando te escrevo ou te ponho nua
– já não fumo, escreve-me poemas que me possam matar

Carlos Soares

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Save me from my bad heart






del shannon | runnaway

We thought we could just roll and tumble,
live from song to song, kiss to kiss.

Song to Song, Terrence Malick



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

You do not have to love me








leonard cohen | bird on the wire

You do not have to love me
just because
you are all the women
I have ever wanted
I was born to follow you
every night
while I am still
the many men who love you

I meet you at a table
I take your fist between my hands
in a solemn taxi
I wake up alone
my hand on your absense
in Hotel Discipline

I wrote all these songs for you
I burned red and black candles
shaped like a man and a woman
I married the smoke
of two pyramids of sandalwood
I prayed for you
I prayed that you would love me
and that you would not love me

Leonard Cohen 

domingo, 17 de setembro de 2017

Happy birthday, parabéns











johnny cash | heart of gold

vezes por ano celebramos o aniversário dos mortos miramos os seus retratos, mas vemo-nos a nós num espelho tão cruel quanto carinhoso
mais velhos um ano, eles, e nós
mais próximos do nosso último retrato
oh sim, fazemos anos nos mesmos dias

happy birthday, parabéns
pode-se continuar morrendo pela eternidade

Bénédicte Houart

sábado, 9 de setembro de 2017

Stripped to the bone










faith no more | stripsearch

Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

Adília Lopes