segunda-feira, 22 de maio de 2017

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia











jeff buckley | satisfied mind 

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 9 de maio de 2017

Da inexorável morte do amor







unkle | burn my shadow

Queimar tudo. Alugar uma casa num lugar sem história na história da minha vida, um lugar de postais antigos, desbotados, e do passado guardar apenas uma urna de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças. Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos. Tentar, sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe miúdo e roupas com defeitos às ciganas. Ser anónimo por fora e por dentro, criança que não se conhece nem quer conhecer e que procura apenas o início e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar os gloriosos fundos de um oceano de merda. Beber pouco. Foder com a moderação que a improbabilidade do diálogo impõe. Emular os pioneiros americanos, pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor.

Miguel Martins

(passaram dois anos e eu ainda espero um lugar sem história.)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A solidão é uma doença de pele








feist | lonely lonely

De noite assobiam os imãs da destruição.
O mesmo vento que hoje nos arranca pela raiz
cose-nos com fio duplo ao vento de amanhã.
Somos manchas minúsculas sob os riscos da noite,
A cidade por onde caminhamos é um sapato demasiado apertado.
Um ar sem céu denuncia-nos, veste-nos para a desaparição.
Perdidos para sempre os planos do homem
um a um vão-se fechando todos os poros.
Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.

Jesús Jiménez Domínguez

(daqui)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Não digas nada









a naifa | pequenos romances

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para a morte.
Não fales – tenho também ciúmes

da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.

Maria do Rosário Pedreira 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Não fujas que eu sei que tu gostas

archive| fuck you

A sua pombinha era eu. Chamava-me, vem cá menina, e a voz antecipando-se amolecida, ou então agarrava-me quando passava por ele pelas esquinas da casa, puxava-me contra si, encostava-se todo, crescia, eu atirava a cabeça para trás a barriga para a frente, crescia com ele, e gostava. A sua pomba gostava.
Nem me recordo bem. Foi primeiro um empurrão, estava eu a comentar que o vizinho do terceiro tinha enviuvado, que desperdício, tão novo e bem parecido, logo havia de encontrar… e veio o empurrão. Não caí. Olhei para ele surpreendida, protestei, supliquei. Desculpou-se, ou em jeito de desculpa agarrou-me, encostou-se como de costume, suámos ambos, gememos ambos. Nem sequer perdoei. Esqueci.
A estalada chegou na semana seguinte. A propósito de… A sopa gelada? Demasiado salgada? Os vincos na camisa do escritório? A conversa com a D. Adelina do quiosque que atrasou o jantar? Um olhar de esguelha para o vizinho? Já não sei. Apanhou-me o olho direito. Levei a mão ao rosto. Encolhi-me. Foi só uma. Baixei a cabeça. Comecei a chorar, primeiro muito devagar, as lágrimas lentas, logo mais velozes, o olho que ardia, os dois olhos escorrendo, como se vazando-se, o corpo a estremecer, sacudindo-o os soluços. As pombas não choram. Esperou alguns segundos, parado a ver-me, como se. Como se certificando-se de que eram lágrimas verdadeiras, sentidas. Arrependida. E logo os mesmos gestos, a mansidão na voz, vem cá pequenina, o seu corpo tenso, teso, forte, os braços protegendo-me, de quê, de mim própria talvez, era isso que ele dizia, tu não sabes, tu és uma ingénua, se não fosse eu, tu, minha pombinha, anda cá que eu faço-te um filho, faço-te quantos quiseres, põe-te a jeito, isso, deixa-te cair, isso, que eu agarro-te, isso… Isso.
Um ano daquilo. Dois anos daquilo. Nenhum filho. Estaladas, sim, empurrões, sim, pontapés, sim. Eu continuava a baixar a cabeça, encolhendo-me, tornando-me pequena, a proteger o rosto com as mãos, mas perdia-lhe o medo. Ganhava-lhe ódio. E, quando se encostava a mim, a pombinha já não pedia mais, já não gemia, já não atirava a cabeça para trás. Já não gostava. E começava a criar garras.
Lembro-me de que dantes me enternecia quando atravessava a praça da figueira, lágrimas rasando os olhos, as pombas arrulhando, os velhos dando-lhes sobras de pão, as pombas arrulhando, e eu, eu, uma de entre elas, arrepiando-me toda, esfomeando-me, ansiosa por chegar a casa e deixar-me escorregar e cair.
Anos daquilo. Quando o eléctrico me deixava na praça, já sentia asco. Anos daquilo. Quando o eléctrico parava, eu descia e já não olhava, já não ouvia. Não sentia nada, nada, a não ser uma estranha força que se apoderava dos meus pulsos, dos meus dedos, das minhas unhas, tenso o corpo, teso, preparando-se sem saber. A pombinha estava morta. E eu já nem chorava, em silêncio cirandava afiando as garras nas esquinas da casa. E espreitava a oportunidade.
Há muito fora enterrada, a pombinha, quando me partiu um braço. Levou-me às urgências. Marido consciencioso, grande cabrão, todo falinhas mansas para as enfermeiras, despindo-as com os olhos, trincando-as, dizimando-as com as palavras, a mim já só se encostava por desfastio, e o seu desejo, vago, vezeiro, ia encorpando o meu ódio, escorregou a minha pombinha, vejam só, tão desastradazinha que ela é, sim, pois, nas escadas. As pombas mortas não escorregam. A casa não tem escadas. Tem esquinas.
Não, pois já se me tinha morrido, aquela brutalidade. Não, pois se eu própria também já tinha morrido. Os mortos não matam, apenas continuam morrendo. Que podem dois mortos um contra o outro?
A sua pomba era eu. Passava por mim ou procurava-me pela casa, ao virar de uma esquina, poucas, porque a casa era pequena, ainda assim mais do que bastante, agarrava-me pela cintura, enfiava as mãos na minha camisola, debaixo da minha saia, anda cá, anda cá, não fujas que eu sei que tu gostas, e eu a fingir, diz lá se não, diz lá que não, e eu que não que não, minha pombinha, vou dar-te a volta à cabeça, a esse corpinho tão jeitoso, ia falando e tirando a roupa, a minha, a dele, e depois, depois, se eu gostava, como eu gostava, o corpo dele metamorfoseando-se numa só mão, o meu também, as duas mãos de um só corpo, nosso ou nem sequer, uma onda de espuma que me entontecia, as pernas trôpegas, a boca cheia, a pele revirada, os olhos ardendo insones, os órgãos enlanguescendo-se. Sangue, silêncio, sémen.
Inocente e culpada, tanto se me dá, tanto se me dá. É como disser.
Senhor doutor juiz.

Bénédicte Houart

domingo, 30 de abril de 2017

Keeps you walking but never shout








peter murphy | cuts you up

Não te queria quebrada pelos quatro elementos.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trémulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
- aterrada pela riqueza -
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra

Nome do mundo, diadema.

Herberto Hélder 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Empresta-me uma chávena de sal











samuel úria & manuel cruz | lenço enxuto 

- A vingança não altera o que foi feito. Nem o perdão. Vingança e perdão são irrelevantes.
- Que se pode fazer, então?
- Esquecer - disse Borges -, isso é tudo quanto se pode fazer. Quando me fazem mal, finjo que aconteceu há muito tempo, e a outra pessoa qualquer.
- E funciona?
- Mais ou menos - mostrou os seus dentes amarelos -, mais para menos do que para mais.


Paul Theroux

domingo, 23 de abril de 2017

Para onde vão os meus livros








leonard cohen | book of longing

Todas as palavras que profiro,
E todas as palavras que escrevo,
Deverão alargar as suas incansáveis asas,
Sem nunca repousarem no seu voo,
Até chegarem ao sítio do teu coração tristíssimo,
E cantarem para ti à noite,
Para lá de onde se movem as águas,
Escurecidas de tempestade ou estelíferas.

W. B. Yeats
(Tradução de Vasco Gato)

terça-feira, 28 de março de 2017

Snow










fiona apple | i want you

Every time it starts to snow, I would like to have
sex. No matter if it is snowing lightly and unseri-
ously, or snowing very seriously, well on into the
night, I would like to stop whatever manifestation
of life I am engaged in and have sex, with the same
person, who also sees the snow and heeds it, who
might have to leave an office or meeting, or some ar-
duous physical task, or, conceivably, leave off having
sex with another person, and go in the snow to me,
who is already, in the snow, beginning to have sex in
my snow-mind. Someone for whom, like me, this is
an ultimatum, the snow sign, an ultimatum of joy,
though as an ultimatum beyond joy as well as sor-
row. I would like to be in the classroom — for I am
a teacher — and closing my book stand up, saying
"It is snowing and I must go have sex, good-bye,"
and walk out of the room. And starting my car, in
the beginning stages of snow, know that he is start-
ing his car, with the flakes falling on its windshield,
or, if he is at home, he is looking at the snow and
knowing I will arrive, snowy, in ten or twenty or
thirty minutes, and, if the snow has stopped off, we,
as humans, can make a decision, but not while it is
still snowing, and even half-snow would be some
thing to be obeyed. I often wonder where the birds
go in a snowstorm, for they disappear completely.
I always think of them deep inside the bushes, and
further along inside the trees and deep inside of the
forests, on branches where no snow can reach, deep-
ly recessed for the time of the snow, not oblivious
to it, but intensely accepting their incapacity, and
so enduring the snow in brave little inborn ways,
with their feathered heads bowed down for warmth.
Wings, the mark of a bird, are quite useless in snow.
When I am inside having sex while it snows I want
to be thinking about the birds too, and I want my
love to love thinking about the birds as much as I
do, for it is snowing and we are having sex under
or on top of the blankets and the birds cannot be
that far away, deep in the stillness and silence of the
snow, their breasts still have color, their hearts are
beating, they breathe in and out while it snows all
around them, though thinking about the birds is not
as fascinating as watching it snow on a cemetery, on
graves and tombstones and the vaults of the dead,
I love watching it snow on graves, how cold the
snow is, even colder the stones, and the ground is
the coldest of all, and the bones of the dead are in
the ground, but the dead are not cold, snow or no
snow, it means very little to them, nothing, it means
nothing to them, but for us, watching it snow on the
dead, watching the graveyard get covered in snow, it
is very cold, the snow on top of the graves over the
bones, it seems especially cold, and at the same time
especially peaceful, it is like snow falling gently on
sleepers, even if it falls in a hurry it seems gentle,
because the sleepers are gentle, they are not anxious,
they are sleeping through the snow and they will
be sleeping beyond the snow, and although I will
be having sex while it snows I want to remember
the quiet, cold, gentle sleepers who cannot think of
themselves as birds nestled in feathers, but who are
themselves, in part, part of the snow, which is falling
with such steadfast devotion to the ground all the
anxiety in the world seems gone, the world seems
deep in a bed as I am deep in a bed, lost in the arms
of my lover, yes, when it snows like this I feel the
whole world has joined me in isolation and silence.

Mary Ruefle

segunda-feira, 27 de março de 2017

A little girl lost in the woods










morphine | the night

tinha uns olhos de uma tal profundidade que, a princípio, uma pessoa sentia que podia cair lá dentro como num mar, um mar de sentimento. e em seguida, deixavam de ser um mar absorvente para se transformarem em faróis dotados de uma extraordinária intensidade de visão, de consciência e de percepção. onde pousassem aqueles olhos, todos os objectos adquiriam significado. eram ao mesmo tempo tão vulneráveis e tão sensíveis que tremiam como a chama delicada de uma vela ou como o diafragma de uma lente fotográfica muito sensível, que se fecha subitamente quando a luz do dia é intensa demais. percebia-se que havia dentro dela uma câmara escura, tal como num laboratório de fotografia, na qual a exposição à luz do dia, à crueza e à brutalidade causava o aniquilamento instantâneo da imagem. aqueles olhos davam a impressão de terem uma visão do mundo mais apurada. se a sensibilidade os levava a retraírem-se, a contraírem-se rapidamente, isso não acontecia porque se protegessem cegamente, mas para poderem regressar a essa câmara interior onde se desenrolava a metamorfose, através da qual a dor pessoal se transformava na do mundo todo, e a experiência pessoal da fealdade se transformava na experiência que o mundo dela tem. ao aumentar e situar o acontecimento insuportável na totalidade do sonho, transformavam-no numa compreensão da vida, ampla e arejada, e era isso que lhe dava aos olhos um poder essencialmente triunfante, que as pessoas tomavam erradamente por força, e que era na realidade coragem.

Anaïs Nin