quinta-feira, 28 de julho de 2016

Mírenme, a la vida vuelvo ya

lhasa de sela | el pájaro

construíste a tua casa
emplumaste os teus pássaros
golpeaste o vento
com os teus próprios ossos

terminaste sozinha
aquilo que ninguém começou

Alejandra Pizarnik

quinta-feira, 21 de julho de 2016

And i believe my heart has turned to stone


















the white buffalo | oh darlin' what have i done

Não sei o que é um espírito. Ninguém
conhece a fundo a luz do seu abismo
enquanto o vento à noite vai abrindo
as infinitas portas de uma casa
vazia. A minha voz
procura responder a outra voz,
ao choro dos espectros que celebram
a sua missa negra, o seu eterno
sobressalto. Num ermo
da cidade magoada escuto ainda
o rumor de um oráculo,
a febre de um adeus que se prolonga
no estertor dos ponteiros de um relógio,
nesse ritmo feroz, na pulsação
do meu sangue exilado que recorda
um abrigo divino. Pai nosso, que estás
entre o céu e a terra, conduz-me
ao precipício onde hibernou a alma
e ensina-me a romper a madrugada
como se a minha face fosse
um estilhaço da tua
e nela derretessem, por milagre,
estas gotas de gelo ou de cristal
que não sabem ser lágrimas.

Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, 31 de maio de 2016

Espectáculo














benjamin clementine | then i heard a bachelor's cry

Dois ou três nomes para o silêncio. Disse: dois ou três nomes para o silêncio. Riem-se e continuam a conversa. Dor, dor, dor. Disse: dor, dor, dor. Riem-se de novo e continuam a conversa. Espeta uma faca no peito, abre-o de lado a lado e mostra a carne que sangra. Riem-se ainda (a cena do faquir, comentam, com autoridade de conhecedor). Arranca o coração do peito, estende-o nas mãos em sangue. Reclamam algo mais ousado (é muito fácil o sangue de ninguém). Dobra-se sobre si mesmo para morrer, nas mãos apertando o coração inútil (não havia espectáculo afinal). Voltam a rir, enquanto chamam o empregado para limpar o chão (desfecho tão vulgar para o que se anunciava, concluem). De seguida retomam a conversa.

Jorge Roque

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Diz-me tu se no final terei que me arrepender

jeff buckley | i know it's over

Às vezes não queria
morder uma canção na laranja;
nem ouvir que no relógio se enrosca lentamente
a anaconda do dia;
Nem ir procurar aos muros brancos do visível
as fendas onde cresce
a flor escura da realidade.

Às vezes sinto inveja de quem não está obrigado
a abrir em cada nome uma clarabóia
que ilumine
o seu inferno, e o seu sentido;
quem não vê na escada
                                       a terrível
                                                        coluna
                                                                    vertebral
do dragão dos sótãos
ou não pressente nas cruzes a âncora da morte.

Que bonito deve ser um dicionário
em que as palavras não sejam senhas
nem chaves,
nem vitórias,
nem redes,
nem alfândegas,
mas apenas elas mesmas: furacão, cicatriz,
selva,
música,
amante,
silêncio,
molhe...

Às vezes
não queria imaginar que existes,
nem sonhas que as linhas do meu poema deixam
um arranhão na tua pele.

Porque é doce cortar o arame farpado
dos versos rasurados;
saber que no milho se decifra um tigre;
baixar as palavras à procura da sua música,
ser o seu centro
como a capital da dor é a ferida;

e ao mesmo tempo é tão duro
admitir que sofres
a maldição de tudo o que ao não ser exacto
se tem que conformar
com ser só infinito:
cada poema trata
do que não conseguiu o poema anterior

Diz-me tu se no final terei que me arrepender.

Benjamín Prado

(Tradução de Maria Sousa)

terça-feira, 3 de maio de 2016

Eu não sou dessas mulheres incapazes de amor e ternura




















pj harvey | the darker days of me and him

Eu não sou dessas mulheres
incapazes de amor e ternura.
Eu sei o que é coragem e sangue,
embora odeie o sacrifício e me repugne
a vaidade que nasce da violência.
Quero ser mulher de um mercenário,
de um poeta ou de um mártir, é igual.
Eu sei fitar os olhos dos homens,
sei quem merece a minha ternura.

Amalia Bautista

(Não podemos matar a poesia quando ela mora dentro de nós.) 

terça-feira, 15 de março de 2016

Fim

Este blogue termina aqui.

Obrigada por tudo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

E há sempre uma ave que pousa no cimo das coisas em vez de nos pousar no coração















the divine comedy | our mutual friend

nos dias tristes não se fala de aves
liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso

nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Filipa Leal

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O sinal definitivo de que nos voltámos a enganar












ornatos violeta | deixa morrer

Não sabemos nada.
Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio de um cais frio.
Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltámos a enganar.

Amalia Bautista

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Ficaram estreitas passagens entre frio e calor e entre certo e errado























arcade fire | my body is a cage

O corpo tem abóbadas onde soam os
sentidos, se tocados de leve, ecoando longamente
como memórias de outra vida
em frios desertos ou praias de lama.
O passado não está ainda preparado para nós,
para não falar do futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, cabelo,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.

Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais – pois o preço era
muito alto para o que podíamos pagar –
da alegria das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto; e quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o melhor que conseguimos.

A beleza do corpo amado é
(agora sabemo-lo) lixo orgânico.
O mármore que pudemos foi o das casas de banho
e o dos balcões dos bancos,
e grandes gestos nem nos romances,
quanto mais nos versos! E do amor
melhor é nem falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.

Corpo, corpo, porque me abandonaste?
“Tomai, comei”, pois sim, mas quando
a química não chega para adormecermos,
a que divindades havemos de nos acolher
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta investigação histórica,
tanta psicologia e tanta antropologia?
A memória, sem o corpo, não é ascensão nem recomeço,
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos calar-nos
sem temer o silêncio nem a culpa
porque já não há tais palavras.

Manuel António Pina

Night and day i dream of making love to you. Now baby. Love making on screen. Impossible dream.























pj harvey feat. thom yorke | this mess we're in

As mãos.
Essa região desconhecida que nos aproxima e afasta ao mesmo tempo.

Perco-me na penumbra do que queria ter gritado e não pude.

O desejo resgata-nos do abismo,
mas também se ergue o que não admite consolo.

Palavras como pássaros na solidão do ar.

Lucía Estrada