quinta-feira, 28 de junho de 2018

I gave myself in that misty light

jeff buckley | lilac wine

Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.

Clarice Lispector

Gostava de te mostrar
o meu labiríntico arvoredo ou
a sinfonia dos meus canteiros;
levar-te ligeiro pela mão
numa manhã deslumbrada de sol
- vês? - aqui, a gravidade das camélias
ali, os pirilampos, infinitos.
Haveria poços e covis de lobos
(portas inteiras de escuridão sonora)
mas também tulipas e girassóis
e rios, entornados em cascata,
e as folhas leves de doce vento.
Gostava de te mostrar
o meu jardim de dentro
(pétalas e pássaros, odoríferos, habitando
a nudez cava dos troncos)
gostava - mas uivam os lobos -
- tu assustas-te.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Se nos encontrarmos de novo

jeff buckley | morning theft

Podemos chamar alguém com tanta força, mesmo sem o sabermos, que essa pessoa vem do outro lado do mundo ao nosso encontro. E a nossa vida é feita desses encontros.

Ana Teresa Pereira 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Deixarei aberta a porta








james | out to get you

Para o caso de chover na tua rua
e quereres enxugar o corpo
entre meus braços
Para o caso de o silêncio te acometer
e recordares a língua estranha
que aprendeste a meu lado
Para o caso de regressares
humedecendo as lembranças de luas
Para o caso de o trópico te reclamar
impaciente entre seus verdes
Ou para o caso de ser noite na tua morada
deixarei aberta a porta

Josefa Parra

sábado, 26 de maio de 2018

A tua boca clara singrando largamente no meu peito






chris isaak | you owe me some kind of love

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 23 de abril de 2018

To get a sense of the infinite

waterboys | this is the sea

the way a photographer, when he sets up
a shot of sea or desert out to the edge of the horizon,
has to get something large and close-up into the picture -
a branch, a chair, a boulder, the corner of a house,
to get a sense of the infinite, and he forgets about the sea
and the desert - that’s how i love you.

Yehuda Amichai

quarta-feira, 18 de abril de 2018

En el momento justo en que el sueño se encuentra con esos ojos abiertos








dark dark dark | daydreaming

No debiera ser posible dormirse sin tener cerca
una voz para poderse despertar.
No debiera ser posible
dormirse sin tener cerca
la propia voz para poderse despertar.
No debiera ser posible
dormirse sin despertar
en el momento justo en que el sueño se encuentra
con esos ojos abiertos
que ya no necesitan dormir más.

Roberto Juarroz

terça-feira, 3 de abril de 2018

(And when the sky drops all those feathers)










alela diane | oh my mama

Nenhum amor é estéril, um filho
pode ser uma estrela ou ser um verso.

Eugénio de Andrade 

Darkness sometimes falls right in the middle of an embrace






nick cave | the sweetest embrace

when a man grows older, his life becomes less dependent
on the rhythms of time and its seasons. darkness sometimes
falls right in the middle of an embrace
of two people at a window; or a summer comes to an end
during a love affair, while the love goes on
into autumn; or a man dies suddenly in the middle of speaking
and his words remain there on either side; or the same rain
falls on the one who says goodbye and goes
and on the one who says it and stays; or a single thought
wanders through cities and villages and many countries
in the head of a man who is travelling.

Yehuda Amichai

quinta-feira, 1 de março de 2018

Queimei os pequenos romances











a naifa | pequenos romances

despojado de tudo o que foste
coincides
com um propósito muito antigo
a vida
reencontrada em lugares inesperados.

Luís Falcão

(hoje era um dia importante. só caiu no esquecimento.)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

* In your dreams you shall ride whilst your mammy's watching over *











current 93 | all the pretty little horsies

são tão altas as paredes da noite
tão habitadas pela estranheza de existirmos. tanta é a insónia
que me visita para me deixar este travo de amargor
esta suspeição de que para lá de todo o mundo
existe qualquer outra coisa
de que nem sei a cor
nem o sabor

(tento recuperar o meu corpo
a morna quietude do meu corpo
e acontece-me despertar
sempre e cada vez mais)

- há qualquer coisa de antigo neste estar aqui
a esta hora despropositada e perdida
a tentar alinhavar uma carta -

(o tempo que nos engole os dias e
o tempo que nos expulsa em solidão à luz do sol)

dias a dias a roda incessante das horas nos rouba
o sonho feliz. provavelmente
é um certo vazio que se instala entre os ossos e
a cor do olhar. perco-me tantas vezes quando
vigio o outro lado do mundo
perante o imenso das águas
de que quase sinto o rugido
aqui
sentada no silêncio e digo
- então a vida é isto?

a gente entrega assim
tantas vezes

demasiadas vezes

um corpo
a outro
corpo

na esperança que ele o devolva roído de
ossos e tristezas e no
final
os dias são a hora exacta dos olhos no momento em que uma dor
qualquer
maior que a hora toda
se interpõe entre
mim
e
ti

(carregamos todos demasiados segredos
dores inconfessáveis e antigas
carreiros sinuosos por onde as lágrimas calam
e secam)

sei: há esse quotidiano de mãos
que se afundam na distância
e beijos por dar
sempre por dar
há essa fronteira de vidro
inquebrantável fronteira de vidro e casas de onde semeamos estas palavras
como segredos
(quanto
que de nós resta
depois da morte sussurrada
depois da morte
da doce morte
que assoma em cor
ao teu rosto
em água à tua boca
e se faz e desfaz
entre pernas e lençóis e vida
- uma pequena morte que reclamamos como nossa
um pedaço de ressurreição
possivelmente uma terra de renovadas boas-novas

- sei)

a verdade é que uma andorinha nunca basta
para toda a primavera
e como poderíamos então
crescermo-nos como outras terras
um no outro?

(temo ter-te já dito demasiado)

o que na verdade acontece é palpável apenas
no pensamento

sobra sempre um olhar
que vigia o frio rugido em que os dias
como o mar
se estendem para lá
sempre para lá
sempre
para lá

suspeito que mesmo a flor
tremenda
do meu ventre
rebentando agora cálida à tua beira
não é essa carne viva e pulsante como astro
mas uma qualquer outra história
de invisíveis enredos
mãos bocas fios e abismos com peixes dentro
onde marés e olhos
desvendam no mar os rios e
os ardores do sol
sabem
inevitavelmente
ao luar que aí morre