quarta-feira, 16 de maio de 2012

Há um pássaro azul no meu coração

beck | guess i'm doing fine


há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.

depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

Charles Bukowski

2 comentários:

maria joao moreira disse...

também tenho um... se calhar, temos todos! lindo post, como sempre.

Cila disse...

Pois é Vanessa...

Sabes o que é mais visível nesse contexto todo?
Tudo o que mais agrada a priori, quem nos olhe esse pássaro quieto com olhar marítimo, a fazer se aproximar no dito mistério que tal singular ave impõe, correrem depois assustados com aquele olhar interrogativo de porque não nos consegue fazer soltar o pássaro, numa angustiante cobrança silenciosa a nos olhar entre acenos desconcertados...
É como se o pássaro ao cantar de noite, escondido e solitário, num ímpeto de feitiço de medusa, (o que chamo eu de canto absurdo de beleza), nos transformasse em pedras para o dia. Hipnotizados que estamos pela melodia, a voz, o ritmo, a melancolia que o belo tem...

Mas nem todo mundo tem olhos para perceber isso.

E haja coração, que não é de pedra, mas com muito mais carne e sangue do que se julga, para viver sob dedos deslizantes dos que se aventuram a nos fazer tocar essa música sempre tão calada, dando tchau...

E a gente vai assim, aprendendo a ficar bem...
Apesar de tudo.

Um carinhoso abraço.
:)