Desde que me lembro de ser gente, desde que tomei consciência do meu rosto triste nos espelhos, tento ter uma atitude comedida - todos os dias - uma espécie de tentativa inglória para agradar a toda a gente, sem exceção - a todos, menos a mim mesma. Por vezes deixo escapar algum gesto exagerado das mãos, ou algum esgar infantil que ainda sobra dos dias inocentes de leite e bolachas de canela da minha avó. Tenho alturas de ouvir vozes quase imperceptíveis numa espécie de sussurro, que imediatamente me impelem um silêncio forçado. Por isso, assumo toda a culpa do que me acontece e deixo-me ficar petrificada, de olhar perdido, enquanto a maior parte das vezes deixo a água escorrer veloz na banca do lava-loiça. Sabes, desde sempre odiei (sim, eu sei que é uma palavra muito forte) tons de voz que subiam, ou movimentos demasiado bruscos devido a uma família sentimentalmente ruidosa. E eu, desde a infância, mesmo quando ficava muda e com as mãos a tapar os ouvidos num canto aleatório da casa, esmagada por todo e qualquer barulho, sentia a opressão de uma vida sem silêncio a crescer dentro de mim, onde qualquer movimento se transformava numa tragédia anunciada aos quatro ventos ou tudo parecia tornar-se palco de palavras violentas e surdas. Talvez entendas agora: assim fui aprendendo aos poucos a calar, a falar pouco e, depois de refletir, a nunca ter pressa para falar, a prolongar o mais possível os meus tempos de reação preenchendo-os com olhares de perplexidade e sorrisos de incerteza perante a realidade que sempre conheci. Depois foi muito fácil acomodar-me na dormência dos dias e deixar-me levar - durante décadas - por uma apatia aparentemente confortável e acolhedora, essa paz podre que nada questiona.
Hoje amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso e construo-me esta madrugada letra a letra, devagar. Das palavras que para ti guardo não sei mesmo se alguma delas faz sentido. Não importa. Há nestes dias ansiosos qualquer outra coisa que espreita e que me rouba o pensamento para os dias nublados da infância. Não sei já dizer. Não encontro a palavra mais justa para dizer - e nos olhos que baixo na tua presença há já uma outra cor. Outra cor da minha dor calada.
Sabes, às vezes dói-me os dedos, de tanto os cerrar, ou a pele, tanto faz, e as madrugadas tornam-se frias. E mesmo quando as tuas mãos vêm ao meu encontro, a memória do caos e da dor insiste em permanecer, cruel, solitária, a lembrar-me o medo e o desespero das horas caladas e vazias. E choro para dentro. E quando finalmente adormeço no calor dos teus braços, fica-me a sensação de te ter amado tão pouco, e tu mereces tudo. Porque - nunca - ninguém em tempo algum, amou assim como tu, o meu amor calado.
A felicidade, meu amor, tem a temperatura do teu colo. A chuva a fechar a noite, os cobertores a aquecerem-nos os pés, o meu cansaço, a tua mão no meu cabelo. O mar podia entrar agora pelo chão da sala, invadir a cama, que nem assim eu acordaria.
(...)
Há muito que a hora de jantar já passou, por isso eu na sala escura, a janela preferida da casa aberta porque a chuva cai com força lá fora, parece destruir tudo. Costumava gostar desta janela em dias assim, sentia-me feliz ao ver a água a cair no muro baixo em frente, ao imaginar o mar bravo, perto. Hoje sinto-me cansada deste inverno. Sinto falta do sol, dos dias compridos, das noites quentes, do tempo que não escasseava, como não escasseava o entusiasmo.
O rádio não pára de suspirar a voz quente do fadista: ando na vida à procura de uma noite menos escura que me traga o luar do céu. Volto a ouvi-lo agora que conto o tempo para o teu regresso. O calendário que não tenho diz-me que faltam apenas uns dias. Mas a saudade arrasta os minutos e inventa o sono para eu atravessar a escuridão mais depressa.
Lembro-me, então, dos nossos primeiros encontros. Eu a rezar para que chegasses atrasado: dava-me tempo para respirar, para pensar nas exactas palavras que te diria quando te visse. Depois chegaste - sempre tão bonito, vi-te, fiquei atrapalhada, beijaste-me. E eu, a achar a minha roupa tão ridícula, tudo tão fora do sítio em mim, sem saber o que dizer e o que fazer, apesar de tudo pensado, bem medido, planeado. Mais tarde veio o passeio em frente ao rio, o concerto que tanto queríamos ir, a viagem a Londres. Quando lá chegámos, tu a dizeres a nossa casa, enquanto subíamos as escadas para finalmente chegarmos ao quarto. A nossa casa. Eu só a ouvir: a nossa casa. E a rir-me. Meu Deus, como me fazias rir, especialmente depois daquela manhã tão atribulada! E eu a pensar que de certeza desaparecerias nos próximos dias, já estava a ter a minha dose de felicidade. E entretanto contavas histórias, se calhar para abafar os meus silêncios: tuas, dos teus amigos, das tuas viagens. E eu pensava que gostava de te ter conhecido desde sempre, saber de todos os teus passos, como era a tua voz em criança, a que brincavas no jardim da escola, quantos gafanhotos apanhaste, se tiveste medo do escuro, se te escondias como eu dentro de um guarda-fatos velho à procura de aranhas, para depois as queimar com um fósforo. Um mar de pensamentos a correr na minha cabeça.
Se eu ainda não te amasse na altura, teria sido aí que começaria: sob o céu cinzento de Londres, numa primavera bem distante já deste inverno que por mais que eu faça, parece não se desentranhar de mim.
Mas gosto das coisas que existem porque tu mas mostraste e das que só moram em ti, e que são tão altas como a vida. Como te consomes, por tanto consumires o mundo e de como lhe reinventas os contornos da lucidez num fechar de pálpebras. Gestos casuais, onde te tentas esconder, porém tão teus. Gosto até mesmo dos imprevistos e dos sem medida e sem comparação. É que vives no meu azul, nas minhas canções e nas minhas danças imaginárias, por isso vê lá, até gosto de sentir a tua falta aqui e no fim do mundo e de te encontrar em todos os segundos dolentes que me atravessam. De precisar sempre e cada vez mais de ti.
Gosto das tuas linhas rabiscadas, rebuscadas e apagadas nas janelas que abres para dentro de mim. De saber as tuas deixas, ainda mesmo quando as enrolas entre os dedos, debaixo da língua ou as sentes no peito. É então que me perco e aninho nas sílabas gotejadas pela minha boca, que tem sempre o silêncio de não te saber dizer, tudo aquilo que te digo do outro lado da porta fechada, onde me acordo em mãos cheias de palavras, que escorrem agora pelos meus dedos. Gosto do meu fio a pavio, que sabes de cor e salteado, que gostas e que queres, mesmo cheio de nós e de enleios.
Gosto como aguardas que me parta, que me dispa, que me desmascare até aos limites infinitos da previsibilidade. De mim só queres tudo. Mesmo quando me viras a cara, fazes que não me vês, me mandas embora, me chamas pelo nome, ris do meu cabelo e desdenhas até me levar ao desespero. Tropeço em mim mesma, fico feita num oito, parto-me em quatro, porque me encostas à parede mesmo que não saibas que o fazes, sabendo sempre o que fazes. Acho que me tens viva na tua mão, essa, onde te escrevo e me entrego, essa que juras que não me vai deixar cair.
Gosto da tua voz nos intervalos do silêncio, que seja a única que oiço sobre os telhados, anónimos, dos lugares em volta, dos lugares em mim. Dos olá, dos bom dia, boa tarde ou boa noite, que nunca dizemos, mas que sabemos que existem e transformam, surpreendentemente, mesmo a mais triste realidade em algo melhor. Que tires das minhas palavras coisas que não são para dizer, nem para ouvir. Saber que para ti existo antes e depois das dores imensas, que doeram mais que tudo, e ter a certeza que todas as feridas um dia desaparecerão, saradas.
E gosto do teu ar confiante, inseguro, cansado, apalhaçado, tímido e adocicado. Quando fazes tudo para me fazer rir, chorar e apaixonar. Quando me deixas sem fôlego e sem saber de mim. Quando me acordas ou quando me aconchegas, dos teus beijos mágicos no meu ombro direito, de todos os beijos: dos escritos, descritos, ditos, dados, dançados, abraçados, chorados, obrigatórios, inevitáveis, necessários, por dar.
Era um dia, um lugar, um acidente e ambos fingimos que não sabíamos. Era uma distância tão ínfima que nos tentei matar sempre que te aproximavas mas hoje sei que, sempre que o fizer, viverás sempre mais. E mais forte.
Quase nunca digo que gosto de ti… Mas digo que gosto da forma como gosto de ler os teus olhos, mesmo na íntima lonjura, onde encontro tudo quanto à altura de amor é mais perfeito. Se nunca disser que te amo, será que nunca o senti? É que a gostar-te como eu gosto de ti, eu só posso amar-te.
O que não é dito corrói-nos por dentro, faz-nos crescer um nó indecifrável na garganta. Achámo-nos pouco dignos das palavras, guardámo-las a sete chaves, como se fossem preciosas e tivessem de ser ditas no tempo certo. E depois o momento passou, ninguém nos diz que o tempo certo não existe. Sabemos eventualmente que somos especiais, mas nada é dito, até que nos esquecemos do que somos e nos recolhemos no silêncio e num passado de mágoas. Um silêncio ensurdecedor, maligno, impuro, que tudo leva e tudo arrasta. E depois chega alguém que te desperta desse transe, que tu reconheces no meio do caos, alguém disposto a trazer-te de volta. E tu simplesmente não sabes como porque enterraste o passado lá atrás e tocar nessa ferida dói demais. Continuas a viver escondida naquele canto da casa, atrás da porta, sem pedir socorro. Aprendeste a viver nas aparências da normalidade, a fugir das perguntas com um sorriso. A responder com outras perguntas. Para não pensares naquilo em que te tornaste: uma mentira. Quando olhas ao espelho não te reconheces. Dizes: olha em frente, haverás de te encontrar algum dia. Então porquê o medo? Voltaste à criança assustada para descobrires que estás presa num labirinto de memórias más. A coragem ficou lá atrás? Onde estás? O que aconteceu aos teus olhos? Dás graças todos os dias por teres encontrado alguém verdadeiro a quem podes abrir o coração, mesmo que o julgues de pedra, quase morto, sem valor. E essa pessoa não sabe, e tu pensas que sim porque assumes que sabe, só pode saber. E ele diz-te sempre que as palavras contam, que são importantes. E são. Então porquê este nó na garganta se o que tu mais queres é falar e gritar ao mundo: tu encontraste-me e vês-me como sou, contigo eu perco o medo? Camuflada tantas vezes essa dor que te achaste apenas a seguir um caminho escolhido pelos outros, sem coragem de dizer: eu sinto, eu estou aqui. Tantas vezes rezaste para não darem por ti a chorar que te tornaste invisível a ti própria. Alguém triste que acha que talvez não mereça amor, que não conhece amor, por todos os muros que criou e não sabe como os derrubar. Só para que nunca te vissem chorar. Existe cobardia maior que esta? Não creio.
sempre achou que de todas as estações do ano, era a estação da chuva a que melhor combinava consigo. gostava de vestir-se para esses dias. gabardine, botas e guarda-chuva. a este, preferia-o transparente, deixando à mostra as varas da sua construção.
mas do que mais gostava, era de fingir-se esquecida de todos os artefactos e de sair para a rua, chorando a sua existência de água. a chuva na nuca até às entranhas. e não podia passar longas temporadas sem ela, sentia-se como solo a precisar de ser regado.
reagia sempre com uma certa estranheza quando lhe diziam que a chuva era incómoda, que era chata. nessas alturas lembrava as galochas dos seus seis anos e o chapinhar nas poças de água. precipitação. queda. tempestade. sentia-se mais viva nos dias em que chovia. o que esperava mesmo era o inundar de cada fenda dos seus ossos contraídos. mais do que um fenómeno metereológico, havia dias em que a chuva era um estado de si.
lá no fundo acreditava que a seguir a um dia chuvoso talvez fosse mais fácil o florescer da tão anunciada primavera. e isso muito poucos viam nela.
por estes dias sentia-se enferrujada, como coisa que foi deixada demasiado tempo à chuva. precisava de descobrir o caminho para as manhãs de sol que começavam a romper em dias limpos a cheirar a malmequeres.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
Estas palavras viajam sem âncora, crescendo a despropósito entre o céu da boca e a boca do corpo. Digo:
- Mãe?
- Sim?
- Nada, não é nada.
No ventre terroso do teu corpo onde, por assim ser, começa o teu nome, uma árvore de mil frutos que se intromete entre a língua e as mãos, digo mil frutos e a minha boca não nega o seu sabor de mel - que o vento e a chuva nos lavem da face de terra e ainda assim o meu coração se erga sem medo, e com ele todo o tempo. E nos teus olhos, nessas fronteiras de vidro onde tantas vezes espreitei a eternidade, duas asas nos esperem num abraço que nos há-de elevar pelos céus.
- Mãe?
- Sim?
- Nada, não é nada.
Quem nos parte deixa para trás um rasto de coisas por nomear. Aqui falamos das nossas pequenas tristezas. Quem nos parte habita depois os lugares em que a memória concebe outras histórias e os nomes repousam em nós, e devagarinho, muito devagarinho, enxugamo-nos, num fundo de tanta água.
- Mãe?
- Sim?
- Nada, não é nada.
Comíamos pêssegos maduros sentadas no muro, ensolaradas de tanto abismo lá em baixo, de tanta doçura de frutos e eu:
- Mãe?
- Sim?
- Nada, não é nada.
E do amor sobra-me sempre tudo - excepto o que deveria escrever. Achas que o amor que é tudo e mais essa palavra sem nome, pode voar-me por dentro?
Não, o amor é tudo excepto essas asas nos pés. Tem pés de chumbo e puxa-te para uma escuridão que nem a ti própria reconheces. Não se dá em nomes, não conhece o teu rosto, anda às cegas e de vez em quando desata-se na tua língua, desfaz-se na tua pele como a espuma do mar e tu cais lá dentro e é como um ventre fecundo, sempre a parir dias, sempre a parir noites, e depois nunca mais caminhas, a não ser agarrada a esse chão. Voas, se calhar voas, mas é rente, sempre rente à cova que os teus pés marcam, porque é assim como morrer só que antes do tempo, antes do tempo todo, e tu ficas dependente dessa morte.
Está frio. Frio de orvalho que pinga nos beirais da nossa casa e penso que tenho para aí oito anos e de pernas nuas e saia rodada sinto um lagarto a descer pela roda. As cores vivas de antes todas a preto e branco, agora mortas. Estou do lado de cá do muro, sou uma menina que não corre e está em frente ao muro de parede alta, muito alta.
Deste outro lado do muro imagino até que posso ter oito anos e corro pelo muro em equilíbrio atrás do meu irmão. É apenas um joelho esfolado ou uma ferida de tempo no tempo ou um futuro de filhos a escorrerem entre as pernas.
- Mãe?
- Sim?
- Nada, não é nada.
E caminho com os sapatos de chumbo do amor. Essa palavra sem nome escreve-se torto pelas linhas e a direito do meu corpo.
Do lado de cá é o amor que é quase tudo - excepto o que deveria ser: do lado de cá o tempo todo que havia de haver nesse tempo todo e finalmente, dizes,
Apenas te amo com a carne magoada de tantos sonhos anteriores, apenas te amo e vou anoitecendo devagar. Apenas te amo com a vulgaridade dos dias, com este silêncio velho à beira do mar, nos canteiros, caminhos de erva e de pedra e de terra, à vez seca à vez húmida e os seus breves pirilampos e orvalhos.
Trago o chão todo que pisei agarrado a mim, os homens que amei e a ti, os filhos que pari e de ti mãos jovens como manhãs brancas de veludo e o tempo todo, no tempo todo, agarrado a mim.
- Apenas te amo com a vulgaridade dos dias.
Inventa-me outro lugar, vá.
- Um que seja - perpendicular ao nome das coisas para devolver-me esse espanto redondo que é o amor.
Um lugar, sim, curvo, fechado, lento, lentíssimo. Como um rasto molhado de silêncio lambendo os caminhos, os dias e na terra, à vez seca à vez seca, o chão que trago agarrado comigo.
- Apenas te amo com a vulgaridade dos dias. Demasiado quotidiano, talvez, eu que sou só uma alma antiga.
The weight of the world
is love.
Under the burden
of solitude,
under the burden
of dissatisfaction
the weight,
the weight we carry
is love.
Who can deny?
In dreams
it touches
the body,
in thought
constructs
a miracle,
in imagination
anguishes
till born
in human −
looks out of the heart
burning with purity −
for the burden of life
is love,
but we carry the weight
wearily,
and so must rest
in the arms of love
at last,
must rest in the arms
of love.
No rest
without love,
no sleep
without dreams
of love −
be mad or chill
obsessed with angels
or machines,
the final wish
is love
− cannot be bitter,
cannot deny,
cannot withhold
if denied:
the weight is too heavy
− must give
for no return
as thought
is given
in solitude
in all the excellence
of its excess.
The warm bodies
shine together
in the darkness,
the hand moves
to the center
of the flesh,
the skin trembles
in happiness
and the soul comes
joyful to the eye −
yes, yes,
that’s what
I wanted,
I always wanted,
I always wanted,
to return
to the body
where I was born.