segunda-feira, 5 de julho de 2021

Quando calada, a voz é já o começo de um grito














cat power | werewolf

Colecionámos viagens, roupas, postais, pétalas... Um sem número de objetos, paisagens, sonoridades... O efémero. Basta um gesto simples e o castelo da infância desfaz-se, depois é só empacotar a coleção. Retirar as marcas dos pregos das paredes, disfarçar a tinta arrancada. Há restos que se varrem para debaixo dos tapetes. E, só mais tarde, algum tempo depois dos castelos ruírem, é que se aspiram as últimas migalhas dos escombros.

Dizem-nos que as casas são espaços, com janelas e portas, corredores, quartos e objetos que diariamente acumulamos à vista de quem nos visita. Isso é o que facilmente nos ensinam, e aprendemos sem interrogar muito o universo. Ainda assim, escondem-nos a verdade mais antiga. As casas são os corpos. O meu e o teu. Aconchegados, onde quer que haja telhado, ou céu, que nos traga frio e sol à pele. Estamos permanentemente em fuga às evidências. Se isto fosse uma lição capaz de ser ensinada, começaríamos, ao primeiro encontro, por destruir todo e qualquer prenúncio de alicerce. O teu corpo, a minha casa.

Dei-me conta de que todos os poemas inacabados são para ti. Inacabados porque há palavras suspensas nos braços, nos sorrisos, nos olhos. Há palavras suspensas nos lábios. Eu quero que os poemas fiquem inacabados para que as palavras continuem suspensas. À tua espera.

O teu sorriso segura-me antes de eu chegar ao chão.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Everybody's gotta learn sometime













beck | everybody's gotta learn sometime

um destes dias deu por si a pensar que ultimamente se sentia presa de palavras. daquelas que se dizem alto, em conversa com outros. e poderia dizer não consigo falar sobre isto ou sobre aquilo, sobre afectos, sobre política, sobre um filme ou música. mas não, não conseguia simplesmente dizer. e o pouco que dizia parecia-lhe desarticulado, sentia as palavras como coisa fora de si. elas fugiam-lhe sorrateiramente. sempre disseram de si ser uma boa ouvinte. era muito atenta ao ressoar dos outros, à linguagem do corpo e dos silêncios.

pensa que a linguagem é um músculo. que tem de o exercitar. e o certo é que não tem feito muito por isso. pensa que tem estado demasiado tempo presa ao indizível, a todas as tentativas de o dizer. sempre disse só para si. ainda assim, há muito tempo que deixou de se ouvir e fazer eco. e por isso, todas as palavras lhe parecem estranhas mesmo quando ficam por dizer.

encontra-se repetidas vezes sem direcção. não sabe do norte, do sul. confunde esquerda com direita. direita com esquerda. não sabe ler mapas e perde-se amíude por aí. quando habita por dias uma cidade estrangeira, faz questão de vaguear sem geografia. esquecer os pontos cardeais. depois, claro, fica com mazelas no corpo, com inchados tornozelos, com calos de ser perdida. da cartografia da cidade traz consigo as ruelas e becos que encontrou, perdidos, achados, numa esquina de si.

sair de si, sim. voltar a si para sair de si. voltar a si, sim.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

A única inocência é não pensar










siren | joan shelley

deve existir uma outra noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores

Francisco Duarte Mangas


Quando a infância é um lugar escuro ainda existem poemas que nos salvam.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A história mais bela que conheço













mazzy star | fade into you

Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o pardo conto foi feliz até à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes por favor:
é a história mais bela que conheço.

Amalia Bautista

*

Somos todos tão velhos quando sabemos tudo o que importa saber. Vá, conta-me essa história. Pode ser secreta, dessas que se contam baixinho quando as ruas se esvaziam e as cidades adormecem nos olhos mágicos de uma criança. Conta-me então essa história como se fosse uma criança pequena e sentada no teu colo eu precisasse das tuas palavras para que o mundo - este onde mesmo agora caí - fizesse sentido.
Dizes: a história mais indiscreta é a que os olhos olham e narram. Dura mais de três segundos e pode germinar de uma só palavra. Mas essa tu sussurras, é secreta. Não há nada no mundo mais importante que, assim aninhada entre os teus braços, saber que lá fora entre os pregões da multidão porque hoje é sábado e o grasnar das gaivotas, a vida se dá em episódios tão breves como estações onde os comboios param para recolher mãos, olhos, beijos e o corpo numa promessa de sol. 
És belo como uma paisagem toda recortando-se contra a eternidade. Sim, essa mesmo onde as palavras se escondem em ocasos de silêncio e laranjas impossíveis, assim tão translúcidos como diamantes. E os meus olhos percorrem o teu corpo como se quisessem decorá-lo. É tão breve a eternidade. Tão breve, dizes. 
Olha, subitamente não ouço já o restolhar das árvores, o rumor das aves, dos frutos amadurecendo em qualquer boca ávida lá fora no mundo, onde antes a brisa se abria em folhas largas e nelas se escrevia esta história que para ti guardei.
Não é verdade, é apenas o Verão, a humidade do Verão voando em espirais de um calor que trepa pelos ramos e rebenta numa outra música. Por vezes o silêncio é tão estridente como gestos e aqui sob as tuas mãos a minha pele parece ter ganho essa liquidez: esse rumor do mundo desagua agora em mim - ouves? - palavras secretas como círculos de água vão nascendo no meu ventre e tu lentamente entras em mim. É importante que saibas que é por isso que o mundo lá fora parece ter desvanecido. Mas não, está apenas à espera que tu acabes de contar-me esta história.
Que eu penso: como pedra, como árvore ou água, como a asa impossível de uma ave ferida, eu existindo sob a viagem mais longa da tua língua aprendo: não há nada mais para saber, apenas o teu nome. Esse nome, esse apeadeiro secreto do tempo dentro de mim. Depois até pode voltar a ser Primavera, eu me darei em frutos assim todos contidos numa única flor, corpo-teu, húmida-carne-tua, vida-em-mim.
E agora olho dessa janela indiscreta nesse comboio que um qualquer artista sonhou num qualquer dia (pode ser ontem, hoje, agora mesmo) num qualquer lugar (pode ser esse que acontece sob as tuas mãos quando caio nos teus dias e deixo que me traces uma paisagem com céu ilimitadamente azul) e digo: conta-me essa história. Para que o mundo - este mesmo onde ainda agora caí - faça sentido.
Vejo tão claramente por dentro dos teus segredos que também eu sou velha. Tão velha como os velhos são. E nós dois, duas almas antigas, a envelhecer juntos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Da solidão















rodrigo leão & beth gibbons | lonely carousel

Tornámo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.

Jesús Jiménez Domínguez

terça-feira, 26 de maio de 2020

One day i will find the right words, and they will be simple *














cat power | the greatest

Desde que me lembro de ser gente, desde que tomei consciência do meu rosto triste nos espelhos, tento ter uma atitude comedida - todos os dias - uma espécie de tentativa inglória para agradar a toda a gente, sem exceção - a todos, menos a mim mesma. Por vezes deixo escapar algum gesto exagerado das mãos, ou algum esgar infantil que ainda sobra dos dias inocentes de leite e bolachas de canela da minha avó. Tenho alturas de ouvir vozes quase imperceptíveis numa espécie de sussurro, que imediatamente me impelem um silêncio forçado. Por isso, assumo toda a culpa do que me acontece e deixo-me ficar petrificada, de olhar perdido, enquanto a maior parte das vezes deixo a água escorrer veloz na banca do lava-loiça. Sabes, desde sempre odiei (sim, eu sei que é uma palavra muito forte) tons de voz que subiam, ou movimentos demasiado bruscos devido a uma família sentimentalmente ruidosa. E eu, desde a infância, mesmo quando ficava muda e com as mãos a tapar os ouvidos num canto aleatório da casa, esmagada por todo e qualquer barulho, sentia a opressão de uma vida sem silêncio a crescer dentro de mim, onde qualquer movimento se transformava numa tragédia anunciada aos quatro ventos ou tudo parecia tornar-se palco de palavras violentas e surdas. Talvez entendas agora: assim fui aprendendo aos poucos a calar, a falar pouco e, depois de refletir, a nunca ter pressa para falar, a prolongar o mais possível os meus tempos de reação preenchendo-os com olhares de perplexidade e sorrisos de incerteza perante a realidade que sempre conheci. Depois foi muito fácil acomodar-me na dormência dos dias e deixar-me levar - durante décadas - por uma apatia aparentemente confortável e acolhedora, essa paz podre que nada questiona.

Hoje amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso e construo-me esta madrugada letra a letra, devagar. Das palavras que para ti guardo não sei mesmo se alguma delas faz sentido. Não importa. Há nestes dias ansiosos qualquer outra coisa que espreita e que me rouba o pensamento para os dias nublados da infância. Não sei já dizer. Não encontro a palavra mais justa para dizer - e nos olhos que baixo na tua presença há já uma outra cor. Outra cor da minha dor calada.

Sabes, às vezes dói-me os dedos, de tanto os cerrar, ou a pele, tanto faz, e as madrugadas tornam-se frias. E mesmo quando as tuas mãos vêm ao meu encontro, a memória do caos e da dor insiste em permanecer, cruel, solitária, a lembrar-me o medo e o desespero das horas caladas e vazias. E choro para dentro. E quando finalmente adormeço no calor dos teus braços, fica-me a sensação de te ter amado tão pouco, e tu mereces tudo. Porque - nunca - ninguém em tempo algum, amou assim como tu, o meu amor calado. 

Amo-te.

* Jack Kerouac

terça-feira, 3 de março de 2020

O milagre do tempo: tu










camané | triste sorte

A felicidade, meu amor, tem a temperatura do teu colo. A chuva a fechar a noite, os cobertores a aquecerem-nos os pés, o meu cansaço, a tua mão no meu cabelo. O mar podia entrar agora pelo chão da sala, invadir a cama, que nem assim eu acordaria.

(...)

Há muito que a hora de jantar já passou, por isso eu na sala escura, a janela preferida da casa aberta porque a chuva cai com força lá fora, parece destruir tudo. Costumava gostar desta janela em dias assim, sentia-me feliz ao ver a água a cair no muro baixo em frente, ao imaginar o mar bravo, perto. Hoje sinto-me cansada deste inverno. Sinto falta do sol, dos dias compridos, das noites quentes, do tempo que não escasseava, como não escasseava o entusiasmo.

O rádio não pára de suspirar a voz quente do fadista: ando na vida à procura de uma noite menos escura que me traga o luar do céu. Volto a ouvi-lo agora que conto o tempo para o teu regresso. O calendário que não tenho diz-me que faltam apenas uns dias. Mas a saudade arrasta os minutos e inventa o sono para eu atravessar a escuridão mais depressa.

Lembro-me, então, dos nossos primeiros encontros. Eu a rezar para que chegasses atrasado: dava-me tempo para respirar, para pensar nas exactas palavras que te diria quando te visse. Depois chegaste - sempre tão bonito, vi-te, fiquei atrapalhada, beijaste-me. E eu, a achar a minha roupa tão ridícula, tudo tão fora do sítio em mim, sem saber o que dizer e o que fazer, apesar de tudo pensado, bem medido, planeado. Mais tarde veio o passeio em frente ao rio, o concerto que tanto queríamos ir, a viagem a Londres. Quando lá chegámos, tu a dizeres a nossa casa, enquanto subíamos as escadas para finalmente chegarmos ao quarto. A nossa casa. Eu só a ouvir: a nossa casa. E a rir-me. Meu Deus, como me fazias rir, especialmente depois daquela manhã tão atribulada! E eu a pensar que de certeza desaparecerias nos próximos dias, já estava a ter a minha dose de felicidade. E entretanto contavas histórias, se calhar para abafar os meus silêncios: tuas, dos teus amigos, das tuas viagens. E eu pensava que gostava de te ter conhecido desde sempre, saber de todos os teus passos, como era a tua voz em criança, a que brincavas no jardim da escola, quantos gafanhotos apanhaste, se tiveste medo do escuro,  se te escondias como eu dentro de um guarda-fatos velho à procura de aranhas, para depois as queimar com um fósforo. Um mar de pensamentos a correr na minha cabeça.

Se eu ainda não te amasse na altura, teria sido aí que começaria: sob o céu cinzento de Londres, numa primavera bem distante já deste inverno que por mais que eu faça, parece não se desentranhar de mim.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

As certezas do meu mais brilhante amor *





leonard cohen | dance me to the end of love

Nunca digo que gosto de ti…

Mas gosto das coisas que existem porque tu mas mostraste e das que só moram em ti, e que são tão altas como a vida. Como te consomes, por tanto consumires o mundo e de como lhe reinventas os contornos da lucidez num fechar de pálpebras. Gestos casuais, onde te tentas esconder, porém tão teus. Gosto até mesmo dos imprevistos e dos sem medida e sem comparação. É que vives no meu azul, nas minhas canções e nas minhas danças imaginárias, por isso vê lá, até gosto de sentir a tua falta aqui e no fim do mundo e de te encontrar em todos os segundos dolentes que me atravessam. De precisar sempre e cada vez mais de ti.

Gosto das tuas linhas rabiscadas, rebuscadas e apagadas nas janelas que abres para dentro de mim. De saber as tuas deixas, ainda mesmo quando as enrolas entre os dedos, debaixo da língua ou as sentes no peito. É então que me perco e aninho nas sílabas gotejadas pela minha boca, que tem sempre o silêncio de não te saber dizer, tudo aquilo que te digo do outro lado da porta fechada, onde me acordo em mãos cheias de palavras, que escorrem agora pelos meus dedos. Gosto do meu fio a pavio, que sabes de cor e salteado, que gostas e que queres, mesmo cheio de nós e de enleios.

Gosto como aguardas que me parta, que me dispa, que me desmascare até aos limites infinitos da previsibilidade. De mim só queres tudo. Mesmo quando me viras a cara, fazes que não me vês, me mandas embora, me chamas pelo nome, ris do meu cabelo e desdenhas até me levar ao desespero. Tropeço em mim mesma, fico feita num oito, parto-me em quatro, porque me encostas à parede mesmo que não saibas que o fazes, sabendo sempre o que fazes. Acho que me tens viva na tua mão, essa, onde te escrevo e me entrego, essa que juras que não me vai deixar cair.

Gosto da tua voz nos intervalos do silêncio, que seja a única que oiço sobre os telhados, anónimos, dos lugares em volta, dos lugares em mim. Dos olá, dos bom dia, boa tarde ou boa noite, que nunca dizemos, mas que sabemos que existem e transformam, surpreendentemente, mesmo a mais triste realidade em algo melhor. Que tires das minhas palavras coisas que não são para dizer, nem para ouvir. Saber que para ti existo antes e depois das dores imensas, que doeram mais que tudo, e ter a certeza que todas as feridas um dia desaparecerão, saradas.

E gosto do teu ar confiante, inseguro, cansado, apalhaçado, tímido e adocicado. Quando fazes tudo para me fazer rir, chorar e apaixonar. Quando me deixas sem fôlego e sem saber de mim. Quando me acordas ou quando me aconchegas, dos teus beijos mágicos no meu ombro direito, de todos os beijos: dos escritos, descritos, ditos, dados, dançados, abraçados, chorados, obrigatórios, inevitáveis, necessários, por dar.

Era um dia, um lugar, um acidente e ambos fingimos que não sabíamos. Era uma distância tão ínfima que nos tentei matar sempre que te aproximavas mas hoje sei que, sempre que o fizer, viverás sempre mais. E mais forte.

Quase nunca digo que gosto de ti… Mas digo que gosto da forma como gosto de ler os teus olhos, mesmo na íntima lonjura, onde encontro tudo quanto à altura de amor é mais perfeito. Se nunca disser que te amo, será que nunca o senti? É que a gostar-te como eu gosto de ti, eu só posso amar-te.

Tenho a certeza.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Do silêncio











joan shelley | siren 

O que não é dito corrói-nos por dentro, faz-nos crescer um nó indecifrável na garganta. Achámo-nos pouco dignos das palavras, guardámo-las a sete chaves, como se fossem preciosas e tivessem de ser ditas no tempo certo. E depois o momento passou, ninguém nos diz que o tempo certo não existe. Sabemos eventualmente que somos especiais, mas nada é dito, até que nos esquecemos do que somos e nos recolhemos no silêncio e num passado de mágoas. Um silêncio ensurdecedor, maligno, impuro, que tudo leva e tudo arrasta. E depois chega alguém que te desperta desse transe, que tu reconheces no meio do caos, alguém disposto a trazer-te de volta. E tu simplesmente não sabes como porque enterraste o passado lá atrás e tocar nessa ferida dói demais. Continuas a viver escondida naquele canto da casa, atrás da porta, sem pedir socorro. Aprendeste a viver nas aparências da normalidade, a fugir das perguntas com um sorriso. A responder com outras perguntas. Para não pensares naquilo em que te tornaste: uma mentira. Quando olhas ao espelho não te reconheces. Dizes: olha em frente, haverás de te encontrar algum dia. Então porquê o medo? Voltaste à criança assustada para descobrires que estás presa num labirinto de memórias más. A coragem ficou lá atrás? Onde estás? O que aconteceu aos teus olhos? Dás graças todos os dias por teres encontrado alguém verdadeiro a quem podes abrir o coração, mesmo que o julgues de pedra, quase morto, sem valor. E essa pessoa não sabe, e tu pensas que sim porque assumes que sabe, só pode saber. E ele diz-te sempre que as palavras contam, que são importantes. E são. Então porquê este nó na garganta se o que tu mais queres é falar e gritar ao mundo: tu encontraste-me e vês-me como sou, contigo eu perco o medo? Camuflada tantas vezes essa dor que te achaste apenas a seguir um caminho escolhido pelos outros, sem coragem de dizer: eu sinto, eu estou aqui. Tantas vezes rezaste para não darem por ti a chorar que te tornaste invisível a ti própria. Alguém triste que acha que talvez não mereça amor, que não conhece amor, por todos os muros que criou e não sabe como os derrubar. Só para que nunca te vissem chorar. Existe cobardia maior que esta? Não creio.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Down by the water









pj harvey | down by the water

sempre achou que de todas as estações do ano, era a estação da chuva a que melhor combinava consigo. gostava de vestir-se para esses dias. gabardine, botas e guarda-chuva. a este, preferia-o transparente, deixando à mostra as varas da sua construção.
mas do que mais gostava, era de fingir-se esquecida de todos os artefactos e de sair para a rua, chorando a sua existência de água. a chuva na nuca até às entranhas. e não podia passar longas temporadas sem ela, sentia-se como solo a precisar de ser regado.
reagia sempre com uma certa estranheza quando lhe diziam que a chuva era incómoda, que era chata. nessas alturas lembrava as galochas dos seus seis anos e o chapinhar nas poças de água. precipitação. queda. tempestade. sentia-se mais viva nos dias em que chovia. o que esperava mesmo era o inundar de cada fenda dos seus ossos contraídos. mais do que um fenómeno metereológico, havia dias em que a chuva era um estado de si.
lá no fundo acreditava que a seguir a um dia chuvoso talvez fosse mais fácil o florescer da tão anunciada primavera. e isso muito poucos viam nela.
por estes dias sentia-se enferrujada, como coisa que foi deixada demasiado tempo à chuva. precisava de descobrir o caminho para as manhãs de sol que começavam a romper em dias limpos a cheirar a malmequeres.