sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Obrigada











leonard cohen | chelsea hotel #2

you said, well never mind, 
we are ugly but we have the music


Mostraste-me as fotografias. Disse-te então que a minha memória se esfumou algures num lugar muito distante aonde não consigo chegar neste momento. E tu foste buscar uma grande caixa de papelão onde guardavas bilhetes de concertos, - quando ainda não eram todos iguais e era um orgulho mostrá-los a toda a gente - músicas gravadas em cassetes religiosamente etiquetadas, panfletos de festas às quais calhámos de ir juntos, e os teus cadernos antigos onde eu tinha rabiscado um poema qualquer. Até a caligrafia está diferente, vê lá, tão mais caótica agora. E essas fotografias!, como eu ria tanto, meu deus! Tu tinhas sempre aquele brilho nos olhos que me parecia indestrutível. Éramos tão diferentes naquela época. E eu não consigo acreditar que foste lendo tudo o que escrevi aqui nestes anos que passaram, em silêncio. A memória atraiçoa-nos mesmo, fico feliz por ter à mão este diário mas esqueço-me muitas vezes de que não é só meu. Sabes, no dia em que te encontrei no café tinhas um livro que eu já tinha lido em cima da mesa. Olhavas pela janela enquanto escrevias qualquer coisa nas folhas gastas do caderno. Devias estar a pensar em viagens: o olhar pareceu-me o mesmo, igual, tão sonhador como antes. Foi assim que te reconheci. Também gostei desse livro: a conversa correu a partir daí. Continuo sem conseguir compilar quase dez anos de ausência, num discurso coerente e sem sobressaltos, para te contar o que me aconteceu. Esqueci quase tudo. Mas tu mostraste-me tudo o que tinhas guardado - ainda que doa - para que eu também me lembrasse, contas histórias daquele tempo para que eu recorde tudo outra vez. Aos poucos, as lembranças aparecem. Tínhamos tantos planos: viagens, sonhos por realizar, gargalhadas por tudo e por nada. Tu rias sem fazer barulho, isso eu lembro-me bem. Nunca conheci ninguém que se risse tanto sem fazer qualquer barulho. Achava isso incrível, logo eu, que tinha uma gargalhada tão espalhafatosa. Olha, agora aprendi a rir baixinho, acreditas? E tu já não ris. Apenas com os olhos. Ontem mostrei-te uma música que descobri e que não parei de ouvir o dia todo. Cantei-a pelos corredores daquele edifício cinzento que nos faz reféns dos nossos sonhos: i can be ugly. E tu ouviste, e sorriste sem dizer nada. Hoje de manhã tinha esta música na caixa do correio. E, caramba, nem sequer te tinha dito que vi o documentário da little girl blue fez dois dias hoje e que também contava das noites no chelsea hotel. Deu-me uma vontade incontrolável de voltar a escrever aqui mais uma vez, para depois não me esquecer disto. Se leres, ao menos diz olá. Sabes, é só para dizer que não aguento muito bem tantas coincidências, ou sinais, o que lhe quiseres chamar, na minha vida. Agora já não. Mas isso tu sabes. Olha, e obrigada por tudo. É só. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

I've been alone on this sea for so long / I wanted to touch, I had to feel love / Before these waves took me under










joan shelley | siren

Apaga a luz quando entrares
e vem ver se em mim ainda se cheira o mar

 Renata Correia Botelho


oh if the pink light of morning
would wash all the demons out of here
i could lie down on your ground
and pull my body near

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Just like a bullet leaves a gun









tom waits | hold on

Vasculhei as tuas coisas como um detective.
Tentei descobrir porque deixaste de gostar de mim.
Não conseguia reduzir a um só motivo

Uma das minhas gavetas está cheia de tralha tua.
Eu queria arranjar um apartamento maior,
e ter um quarto só para ti.
Iria tornar-se numa espécie de museu.
A tua ausência iria estar em exposição.

A tua fotografia está no armário.
Está ao lado dos livros que li,
e que não tenciono reler.

Hal Sirowitz
(Tradução Maria Sousa)

sábado, 10 de setembro de 2016

Let us go now, my only companion / Set out for the distant skies / Soon the children will be rising, will be rising / This is not for our eyes



nick cave & the bad seeds | distant sky

Suave como o perigo atravessaste um dia
com a tua mão impossível a frágil meia-noite
e a tua mão valia a minha vida, e muitas vidas
e os teus lábios quase mudos diziam aquilo
que era o pensamento.
Passei uma noite colado a ti como a uma árvore de vida
porque eras suave como o perigo,
como o perigo de viver de novo.

Leopoldo María Panero

Nothing really matters when the one you love is gone


nick cave & the bad seeds | i need you

O nosso amor morreu
em extremo mau estado,
vítima de doença prolongada,
que nenhum de nós
era a favor da eutanásia.
Podia ter sofrido menos,
padecido menos,
penado menos,
mas mudámos de opinião
demasiado tarde.

Raquel Serejo Martins

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Encontrei-te

thomas feiner & anywhen | all that numbs you

Encontrei-te em todas as noites que não pude ter-te, que não pude
ver-te, que não pude tocar-te. Encontrei-te porque nunca saíste do
meu corpo, dos meus pensamentos, da minha voz, dos versos má-
gicos que a vida escreve para mim.

Encontrei-te no aroma dos meus cabelos, na lembrança iluminada
do teu último sorriso, e também nessa penumbra quente que um
dia retirei das tuas coxas.
E fiz amor com o silêncio que deixaste.

Encontrei-te no meu olhar perdido, na tristeza das rochas, na infi-
delidade das ondas e no infindável território que a inquietação me
deu a conhecer.

Encontrei-te na procura. Enquanto me doía procurar-te. Enquanto
me desesperava saber de ti, reconhecer-te em tudo, em todos, em
limites, indiferenças, solidões, vazios, secretos entusiasmos.

Encontrei-te debruçada no parapeito onde as crianças cantam com
as vozes luzindo e penetrando em mim, como sempre penetrei em
ti, cheio de coragem e de medos, pesquisador de estrelas, amante
curvado sobre a tua boca, essa estrela húmida que sempre me sou-
be ao vento adocicado da nudez.

Encontrei-te, ainda amarrada em mim, pedindo tudo, não exigindo
mais do que a terra pede à chuva, na embriagante dor das cerejei-
ras que querem florir, como o teu corpo floria em minhas mãos e a
tua voz nos meus ouvidos.

Encontrei-te, sim, sem precisar sequer de procurar-te.

Joaquim Pessoa

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Publicidade enganosa


morrissey | you have killed me

está certo reconheço todas as acusações
menti eu sei sabia desde o princípio
todos o fazemos é a maneira de vender

o produto que queres que te diga não sou
quem andavas à procura sim sou um porco
um grandessíssimo cabrão um filho da puta… mas diz-me

que tem tudo isso a ver com o amor?

Pablo Garcia Casado

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Post-it.

pj harvey | who will love me now?

Triste quando desejo e quando não. Triste quando com um corpo e quando não. Triste quando com o seu sorriso e quando não.

Alejandra Pizarnik

terça-feira, 30 de agosto de 2016

E suas sombras profundas








bon iver | skinny love

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

W. B. Yeats

Tentar aprender




sean riley and the slowriders | this woman
Estou a tentar aprender que este homem alegre que se mete comigo é o mesmo homem sério que me fala de dinheiro com tanta seriedade que deixa até de conseguir ver-me, e esse homem paciente, que me aconselha em situações difíceis, e esse homem furioso que bate com a porta quando sai de casa. Desejei muitas vezes que o homem alegre fosse mais sério, e que o homem sério fosse menos sério, e que o homem paciente fosse mais alegre. Quanto ao homem furioso, parece-me um estranho e não creio que detestá-lo seja uma injustiça. Agora estou a aprender que, se digo alguma coisa desagradável ao homem furioso quando ele sai porta fora, estou a ofender, nesse mesmo momento, os outros, que não queria ofender: o homem alegre que se mete comigo, o homem sério que fala de dinheiro e o homem paciente que me aconselha. Mas olho, por exemplo, para o homem paciente, que acima de tudo eu gostaria de proteger de palavras tão desagradáveis como as minhas, e, embora diga de mim para mim que ele é o mesmo homem que os outros, tudo o que posso é crer que não foi a ele que eu disse essas palavras, mas a outro, meu inimigo, que mereceu todo o meu furor.
Lydia Davis