quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Despedida























jeff buckley | i know it's over

Avísame cuando dejes de quererme. Cuando ya no te inunden mis recuerdos, cuando se te haya escapado el olor de mi nuca y no me puedas ver corriendo por el jardín. Avisa cuando nuestras canciones solo sean música, cuando el color azul no sean mis ojos y el delantal repose desnudo en el colgador. Me bastará con que una noche, mientras nos lavamos los dientes, me preguntes ¿perdona, te conozco de algo?

Ana Vidal

(daqui.)

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Conheço o amor de ouvir falar

sparklehorse & pj harvey | eyepennies

Os meus sentimentos deviam guardá-los, ainda lhe podiam fazer falta, e a mim não me serviam de nada, devia tê-lo aconselhado a guardar os sentimentos, nunca sabemos quando precisamos dos sentimentos, da latinha de fermento que está há anos na despensa, da camisola de lã que não é vestida há mais de cinco Invernos, nunca se sabe quando precisamos de coisas mesmo se nunca as utilizamos, não fosse essa incerteza e punha um anúncio no jornal, vendem-se sentimentos, estado impecável, como novos, oportunidade única, motivo mudança de vida, bom preço.


Dulce Maria Cardoso

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Diz-se do passado, que está moribundo.

















sérgio godinho | o primeiro dia

A principio é simples, anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no burburinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho

(a programação segue dentro de momentos.)

sábado, 15 de agosto de 2015

Are those dreams inside your head?
























the national | lucky you

O rapaz arrependeu-se:
- Não chores. Eu acredito.
- Pudera, até no escuro se bate com a cabeça na verdade.
- Cá estou às cabeçadas.

Carlos de Oliveira

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos
















nick cave | people ain't no good 

Meu querido, as árvores falam. Os tigres correm olimpíadas em pistas muito mais incríveis do que aquelas feitas de cimento laranja. Usain Bolt vezes cem, o sorriso de Usain Bolt vezes mil. A matemática não é difícil se você comparar tudo ao aparecimento de um cardume. Alguns frutos nascem no chão, outros caem nos ramos. É preciso estar atento. Certas canções despertam em nós a vontade de uma história que já aconteceu mas que não vai acontecer mais. Algumas histórias têm a duração exata de uma música rock, outras se dividem em cantos. No intervalo dá para comprar pipocas. Poucas pessoas contaram as riscas de uma zebra, mas todos os que o fizeram regressaram diferentes. O alvo de um humano está no terceiro olho e um dia alguém vai explicar para você como afagar ele e onde ele fica. Nunca aponte ao terceiro olho, com aquilo é só cuidados. Algumas vezes vão te empurrar e você vai empurrar de volta, provavelmente vai até querer pegar uma pedra para jogar no peito de quem te feriu. Isso não está certo, mas é humano. Quase tudo o que é humano é justo, não deixe que ninguém te diga o contrário – só não vale enfiar o dedo no tal olho porque isso é igual a matar. A morte é o contrário da justiça. Os peixes respiram debaixo de água e se você mergulhar entre as rochas e se concentrar muito também vai conseguir. Ah é: os peixes brilham mais do que as chamas, e alguns deles vão morar dentro de seus pulmões. Segure-se. Faça por polir seu riso, principalmente ao entardecer. Afine diariamente a pontaria e reze para que nunca seja necessário o disparo. Não existe proteção melhor do que a consciência de que podemos decidir atirar ao lado. Sim, daqui a muitos anos você vai conseguir acertar direitinho nessa lata de coca-cola que a gente suspendeu no sobreiro. Só acho que não vai querer. Também vai saber por que razão é melhor segurar uma arma descalço – é que é na terra que está a consciência do mundo, e é preciso escutar o seu ruído para agir em verdade. Saiba também, querido, que muitas vezes a sombra de um desenho é bem mais bonita do que o desenho que está à vista. É preciso estar atento, e descobrir o bichinho que se mexe debaixo da folhagem. Não o mate: se cubra de flores e entre para brincar com ele.

Matilde Campilho

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Para a MI *

rodrigo amarante | the ribbon


Sei que algum dia terei de contar-te a nossa história. Perdoa-me se, por agora, rasguei fotografias e cartas de amor antigas, se atirei com todas as lembranças mais felizes ao caixote do lixo. Sei que um dia irás perguntar-nos e cada um de nós terá a sua versão, mais ou menos fantasiada. E eu não quero faltar-te à verdade, nunca. Escrevo estas linhas enquanto a memória não me atraiçoa, - ou talvez me fuja já a realidade, misturo amor e dor no mesmo prato e sirvo tudo frio, de lágrimas nos olhos - enquanto tu dormes um sono afogueado pela febre. Passaram quase dez meses desde que nasceste - o tempo passa tão veloz, esta é a primeira das lições. E tu sempre foste um raio de sol, desde aquele quente fim de tarde de Outubro, um sorriso aberto, uns olhos brilhantes e acesos nas nossas vidas. Nunca uma cólica, uma queixa mais zangada, nunca uma constipação mais chata, nunca uma doença, uma febre. Até hoje. Hoje ouvi pela primeira vez o teu choro aflito, talvez de dor, talvez de medo, ainda não sei. E tive medo também. Pela primeira vez tu choraste de ajuda e só eu estava lá. Preparei-me durante meses para este momento, não serviu de exemplo. Quando estavas na minha barriga imaginava que seria o teu pai a pegar-te ao colo, a dar-te mimo, - porque eu sempre me senti de mãos e garganta atadas no que toca aos afectos - quando o meu coração ficasse embrulhado de preocupação, o teu pai iria logo em teu socorro antes que eu começasse a inventar coisas. As meninas acham sempre que os pais são uns heróis, não é? Mas hoje o teu pai não estava lá, a febre atacou, e foi nos meus braços que adormeceste, cansada do choro, com os olhos marejados, vermelhos de dor. Hoje, pela primeira vez, senti tanto medo. Medo por ti, por não conseguir acalmar-te no meu peito inquieto, medo por pensar que - se calhar - era o colo do teu pai que querias, que precisavas. E ele não está. São só umas cidades de distância, coisa pouca, mas ele não está e o teu choro continua pela tarde fora, nunca pára. Sabes, costumava dizer que conhecia o amor só de ouvir falar. Dos livros. Encontrei o teu pai numa livraria. Não liguei ao acaso. Voltamos a ver-nos anos mais tarde, ele não se lembrava de mim - encomendei um livro que nunca mais fui lá buscar. Fugi da cidade e fui encontrá-lo a ele. Acho que começou aí. Lembro-me de uma das nossas primeiras conversas sérias: as pessoas perdem-se, encontram-se umas às outras, para depois voltarem a perder-se de novo. Qualquer coisa assim. Não lembro bem porque não liguei muito ao caso. Afinal eram só palavras. A culpa foi dos livros, filha. Eu já escrevia na altura, sempre para me salvar. Comecei depois a escrever para ele, este blogue é testemunha - nem sei como não apaguei também tudo isto. Escrevo para me salvar agora, enquanto tremo de nervos e choro para ninguém ouvir. As palavras não servem de nada mas, para que saibas, foram elas que nos juntaram. E eu achava que a nossa história era a mais bonita de todas, desafiava tudo e todos - o que eu lutei contra o olha o que eu te digo!, e exibia o nosso amor como uma bandeira. Olha, afinal isto não acontece só nos livros, olha nós aqui a mostrar que não! Depois vieste tu e eu tinha a certeza que a felicidade só podia estar completa, eras tu a prova viva do nosso amor. As fotografias escancaravam a minha felicidade, havias de ver. Agora sei que o amor não precisa de espectadores - dá inveja, tanta inveja a quem não o tem. E se eu alguma vez o tive, alguém o roubou ou ele fugiu a correr, já não interessa mais. Ficaste tu, a prova viva do amor que eu só conhecia de ouvir falar, Agora conheço-te a ti, amor maior do mundo, orgulho do fundo dos meus erros. E quem me dera a mim que sejas sempre muito feliz, que conserves esse sorriso no caminho. Esquece os livros, aproveita a vida e sonha muito de olhos fechados, minha filha linda. Sim, eu sei. A nossa história terá de ficar para outro dia. Deixa-me só secar as lágrimas, meu amor,

boy, she said
you oughta know
classifieds will never show
what the aces do
to the queen of hearts.

i know.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Os corações também se abatem.

nancy sinatra | bang bang

Li algures. Se te dissesse que deixei de escrever, mentiria. Procuro em cada palavra uma tábua de salvação. Para que o coração não morra. De pouco me serve. Os corações também se abatem. Quanto a isso nada a fazer. Voltei a ler. Sofregamente. Sempre à espera de uma história que me permita esquecer a minha. A ficção sempre supera a realidade, não achas? Continuo a preferir dramas, cenas tristes, tragédias e afins. Poesia que arde no peito. Julguei um dia ser capaz de escrever um poema de amor para ti. Que tonta fui. Devia saber de antemão que a mim só servem os caminhos difíceis. Ainda não aprendi. Voltei a ouvir música com a mesma vontade de antigamente - a prestar atenção a cada detalhe. Voltei a mim, a meter-me para dentro como um novelo de lã. Sei que não é boa ideia. Mas os corações também se abatem, é verdade. E tudo o que escrevo é melhor do que morrer. Tudo o que escrevo é lixo. Mas é meu. E o coração também, antes que me esqueça.

domingo, 21 de junho de 2015

Sabes o que é o amor?
























bon iver | skinny love

Eu sei que não virás. O quarto
seria este, estes os meus braços, aquela
a jarra com as flores.
Que lindo cachecol. O colete fica-te bem.
Sabes o que é o amor? Poder e não poder
dizer o teu nome sem que me rebente
dentro do estômago, dos intestinos, dos pulmões
a faca de infecções de que poderei morrer.

Joaquim Manuel Magalhães

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Toma nota















tori amos | losing my religion

A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias de intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (A voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.

Elizabeth Bishop

sábado, 6 de junho de 2015

A música era esta

ben harper | i'll rise

you may write me down in history
with your bitter twisted lies
you may trod me down in the very dirt
and still like the dust i'll rise
does my happiness upset you
why are you best with gloom
cause i laugh like i've got an oil well
pumpin' in my living room
so you may shoot me with your words
you may cut me with your eyes
and i'll rise
i'll rise
i'll rise 
out of the shacks of history's shame
up from a past rooted in pain
i'll rise
now did you want to see me broken
bowed head and lowered eyes
shoulders fallen down like tear drops
weakened by my soulful cries
does my confidence upset you
don't you take it awful hard
cause i walk like i've got a diamond mine
breakin up in my front yard
so you may shoot me with your words
you may cut me with your eyes
and i'll rise
out of the shacks of history's shame
up from a past rooted in pain
i'll rise
i'll rise
i'll rise
Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida - chamemos-lhe
assim - separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

Ao quinto ou sexto gin,
(lembras-te?) deitávamo-nos
a sorrir para as estrelas,
sobre o pano gasto do bilhar.

A música era esta.

Perdemos quase tudo.

Manuel de Freitas