quarta-feira, 10 de junho de 2015

Toma nota















tori amos | losing my religion

A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias de intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (A voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.

Elizabeth Bishop

sábado, 6 de junho de 2015

A música era esta

ben harper | i'll rise

you may write me down in history
with your bitter twisted lies
you may trod me down in the very dirt
and still like the dust i'll rise
does my happiness upset you
why are you best with gloom
cause i laugh like i've got an oil well
pumpin' in my living room
so you may shoot me with your words
you may cut me with your eyes
and i'll rise
i'll rise
i'll rise 
out of the shacks of history's shame
up from a past rooted in pain
i'll rise
now did you want to see me broken
bowed head and lowered eyes
shoulders fallen down like tear drops
weakened by my soulful cries
does my confidence upset you
don't you take it awful hard
cause i walk like i've got a diamond mine
breakin up in my front yard
so you may shoot me with your words
you may cut me with your eyes
and i'll rise
out of the shacks of history's shame
up from a past rooted in pain
i'll rise
i'll rise
i'll rise
Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida - chamemos-lhe
assim - separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

Ao quinto ou sexto gin,
(lembras-te?) deitávamo-nos
a sorrir para as estrelas,
sobre o pano gasto do bilhar.

A música era esta.

Perdemos quase tudo.

Manuel de Freitas

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Happiness is a warm gun

















the beatles | happiness is a warm gun 

I

Somos duros um com o outro
e chamamos-lhe honestidade
escolhendo as nossas verdades dentadas
com cuidado e apontando-as através
da mesa neutra

As coisas que dizemos são
verdadeiras: é o nosso alvo
retorcido, são as nossas escolhas
que as tornam criminosas.

II

Claro as tuas mentiras
são mais divertidas:
porque as fazes novas de cada vez

As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono
de tão poucas

III

Uma verdade deveria existir
não deveria ser usada
assim. Se eu te amo

é isso um facto ou uma arma?

O corpo mente
ao mover-se assim, são estes
toques, cabelos, o mármore
macio e húmido que a minha língua percorre
mentiras que me estás a dizer?

O teu corpo não é uma palavra,
nem mente
nem fala a verdade

Apenas
está aqui ou não está.

Margaret Atwood

(daqui.)

sábado, 23 de maio de 2015

Well nobody made this war of mine















beth gibbons | mysteries

as pessoas morrem nunca partem de nós, eu separei-te
de mim, cortei-te-me. em cinemas imaginários filmados por
mãos iluminadas usei teu corpo. coloquei o deserto do teu
coração rente à minha boca. lavaram-me o desespero as
lágrimas que choravas no escuro. parti-te.
estou a fazer-te luto. desejei-te tanto. discuti-te tanto
contigo. agora percebo que te atirei demais contra tantos
poemas.
agora encontrámo-nos. eu tenho de colar-te os restos
para conseguir ver-te para além do que trago molhado nos
olhos, acabou o passeio no meu jardim interior, pleno de estátuas
quebradas, as noites acabo sempre assim, abraçado ao rosto
restos da pedra, agradecendo-lhe as imagens.

Pedro Sena-Lino

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Oh how time flies with crystal clear eyes















cat power | cross bones style 

O meu pai doente de sonhos
no asfalto incandescente de cem mil meios dias caminhados
debaixo do sol na vertical
perdeu os pés
rastejando com os joelhos continua à procura
do caminho de volta para casa.
O meu pai sonha,
derrotado pelo cansaço,
que volta à sua terra, planta as pernas e que lhe crescem pés jovens
e que a seiva da sua terra negra lhe alivia a dor das rugas
e lhe ressuscita os cabelos mortos.
Depois acorda num andar alugado na cidade dos furacões da miséria
e blasfema e maldiz e não tem amigos.

Escondido na noite
o papá chora pelas certezas que o defraudaram.
Do outro lado da sua pele
a mamã chora pela mamã
a mamã chora pela casa onde já não mora
e por paz e descanso e riso.

O papá e a mamã choram
cada um de costas para o outro na cama
no mais cru estrondoso formoso silêncio
que modula em frequências infra-humanas
sons que se articulam como palavras:
se aqui não estão os meus sonhos
como posso dormir aqui?”.
Apenas eu os ouço
com a cabeça enterrada na almofada.

Concebida da nostalgia
nasci com lágrimas no sexo com terra nos olhos com sangue na cabeça.
Não sou o que sonharam
nem as suas vidas o são.

Miriam Reyes

quinta-feira, 21 de maio de 2015

I wish i knew























sharon van etten | i wish i knew

Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos - e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas

Daniel Faria

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Talvez























pj harvey | who will love me now

Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele. 
Talvez se tenha esquecido do relógio, 
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo. 
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho. 
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral 
ou que a mãe dele tinha morrido. 
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido. 
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder 
a cabeça debaixo de uma almofada. 
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também. 
Talvez o semáforo permanecesse vermelho. 
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera 
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler, 
houvesse um programa que ele queria acabar de ver, 
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta, 
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e 
o cão dele de repente começasse a vomitar. 
Talvez não houvesse um telefone por perto, 
não encontrasse o restaurante 
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade, 
incompreensível e inesperada – 
ele tenha deixado de me amar.

 Hagar Peeters

(porque há poemas que nos atingem de imediato, tive de ir roubar este, aqui. obrigada.)

domingo, 10 de maio de 2015

Quem ganhou ganhou e usou-se disso



















jorge palma | a gente vai continuar

Sonho com uma casa claustrofóbica,
um emprego anónimo e mecânico
numa terra sem presente nem futuro;
sonho ser impotente e já desonerado
de qualquer prova da minha existência;
sonho-me em silêncio, quase pétreo,
e sem ninguém que me trate por tu;
sonho-me a viver apenas para o relógio,
pontualíssimo a abrir e fechar portas
e persianas e caixas e olhos;
sonho-me remediado de dinheiro, à justa,
cozendo uma cavala, descascando uma maçã,
sem que a maçã seja mais que uma maçã;
sonho-me a apagar a luz atrás de mim,
tacteando no escuro uma parede escura,
sem memória de qualquer outra parede,
sonho-me a adormecer em Maio e acordar em Setembro
para escapar à agressão do sol;
sonho-me a beber apenas água
e a tomar comprimidos para os rins
e a urinar dolorosamente pouco;
e sonho mais: sonho que nunca te vi.

Miguel Martins

sábado, 18 de abril de 2015

Eu tenho raiva à ternura. Eu tenho raiva de ter raiva à ternura. Eu tenho a doença da ternura por ter raiva. Eu tenho tudo excepto a ternura. Eu não tenho ternura e sofro de inveja de quem tem ternura. eu já só tenho raiva.



























otis redding | try a little tenderness

Deixas rasto no meu peito durante horas. Dou com
cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus
dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel. Procuro-te
nas esquinas dos instantes que passam. Reconheço-te
no vinco que a ternura deixa na carne do peito do
meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina,
de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente
teu, igualmente meu, reflectido na montra de
uma loja do nosso sono.

Manuel Cintra

segunda-feira, 6 de abril de 2015

And me i wait in charming town to gain my love as one

the white buffalo | the house of the rising sun 

Vivi nesta casa muitos anos.
Agora mudaram já de certo a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.
Mudaram os móveis
deitaram fora as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.
Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.

João Miguel Fernandes Jorge