sexta-feira, 22 de maio de 2015

Oh how time flies with crystal clear eyes















cat power | cross bones style 

O meu pai doente de sonhos
no asfalto incandescente de cem mil meios dias caminhados
debaixo do sol na vertical
perdeu os pés
rastejando com os joelhos continua à procura
do caminho de volta para casa.
O meu pai sonha,
derrotado pelo cansaço,
que volta à sua terra, planta as pernas e que lhe crescem pés jovens
e que a seiva da sua terra negra lhe alivia a dor das rugas
e lhe ressuscita os cabelos mortos.
Depois acorda num andar alugado na cidade dos furacões da miséria
e blasfema e maldiz e não tem amigos.

Escondido na noite
o papá chora pelas certezas que o defraudaram.
Do outro lado da sua pele
a mamã chora pela mamã
a mamã chora pela casa onde já não mora
e por paz e descanso e riso.

O papá e a mamã choram
cada um de costas para o outro na cama
no mais cru estrondoso formoso silêncio
que modula em frequências infra-humanas
sons que se articulam como palavras:
se aqui não estão os meus sonhos
como posso dormir aqui?”.
Apenas eu os ouço
com a cabeça enterrada na almofada.

Concebida da nostalgia
nasci com lágrimas no sexo com terra nos olhos com sangue na cabeça.
Não sou o que sonharam
nem as suas vidas o são.

Miriam Reyes

quinta-feira, 21 de maio de 2015

I wish i knew























sharon van etten | i wish i knew

Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos - e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas

Daniel Faria

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Talvez























pj harvey | who will love me now

Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele. 
Talvez se tenha esquecido do relógio, 
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo. 
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho. 
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral 
ou que a mãe dele tinha morrido. 
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido. 
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder 
a cabeça debaixo de uma almofada. 
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também. 
Talvez o semáforo permanecesse vermelho. 
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera 
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler, 
houvesse um programa que ele queria acabar de ver, 
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta, 
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e 
o cão dele de repente começasse a vomitar. 
Talvez não houvesse um telefone por perto, 
não encontrasse o restaurante 
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade, 
incompreensível e inesperada – 
ele tenha deixado de me amar.

 Hagar Peeters

(porque há poemas que nos atingem de imediato, tive de ir roubar este, aqui. obrigada.)

domingo, 10 de maio de 2015

Quem ganhou ganhou e usou-se disso



















jorge palma | a gente vai continuar

Sonho com uma casa claustrofóbica,
um emprego anónimo e mecânico
numa terra sem presente nem futuro;
sonho ser impotente e já desonerado
de qualquer prova da minha existência;
sonho-me em silêncio, quase pétreo,
e sem ninguém que me trate por tu;
sonho-me a viver apenas para o relógio,
pontualíssimo a abrir e fechar portas
e persianas e caixas e olhos;
sonho-me remediado de dinheiro, à justa,
cozendo uma cavala, descascando uma maçã,
sem que a maçã seja mais que uma maçã;
sonho-me a apagar a luz atrás de mim,
tacteando no escuro uma parede escura,
sem memória de qualquer outra parede,
sonho-me a adormecer em Maio e acordar em Setembro
para escapar à agressão do sol;
sonho-me a beber apenas água
e a tomar comprimidos para os rins
e a urinar dolorosamente pouco;
e sonho mais: sonho que nunca te vi.

Miguel Martins

sábado, 18 de abril de 2015

Eu tenho raiva à ternura. Eu tenho raiva de ter raiva à ternura. Eu tenho a doença da ternura por ter raiva. Eu tenho tudo excepto a ternura. Eu não tenho ternura e sofro de inveja de quem tem ternura. eu já só tenho raiva.



























otis redding | try a little tenderness

Deixas rasto no meu peito durante horas. Dou com
cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus
dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel. Procuro-te
nas esquinas dos instantes que passam. Reconheço-te
no vinco que a ternura deixa na carne do peito do
meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina,
de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente
teu, igualmente meu, reflectido na montra de
uma loja do nosso sono.

Manuel Cintra

segunda-feira, 6 de abril de 2015

And me i wait in charming town to gain my love as one

the white buffalo | the house of the rising sun 

Vivi nesta casa muitos anos.
Agora mudaram já de certo a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.
Mudaram os móveis
deitaram fora as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.
Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.

João Miguel Fernandes Jorge

segunda-feira, 30 de março de 2015

Esta é a hora das minhas confidências
















jeff buckley | hallelujah

Esta é a pressão de uma mão tímida, este é o aroma dos cabelos que esvoaçam,
Este é o roçar dos meus lábios nos teus, este é o murmúrio do desejo,
Esta é a profundeza e a altura distantes reflectindo o meu próprio rosto,
Esta é a meditativa fusão de mim próprio, e a saída outra vez.

Achas que tenho algum propósito obscuro?
Sim, tenho, como o têm as chuvas do quarto mês, e o tem a mica sobre as rochas.

Pensas que quero assombrar?
A luz do dia assombra? O pisco-ferreiro madrugador que chilreia nos bosques assombra?
Eu assombro mais do que eles?

Esta é a hora das minhas confidências.
Talvez não as faça a todos, mas a ti farei.

Walt Whitman 

terça-feira, 3 de março de 2015

Oh my mama, she gave me these feathered breaths













alela diane | oh my mama

Na noite anterior ao primeiro dia sem ti não consegui dormir. Olhava para ti como quem protege um tesouro abandonado, na esperança de conseguir decorar as tuas mãos pequeninas ou guardar no peito os teus suspiros, de olhos fechados. De vez em quando sorris e é tão bom. Agora já não choras por causa dos pesadelos mas, ainda assim, deixo-me ficar acordada. Gosto de ver-te assim sossegada. Porque é nestas alturas que o meu coração encontra algum tempo para se acalmar. O corpo ainda se arrasta de cansaço em cansaço, a cabeça não dá tréguas e exige e comanda e ordena. O corpo implora descanso, o coração estica e alarga e inunda tudo. A razão, quase sempre, foge para sítio incerto e não cala tudo o que não se deve dizer. Deixei de escrever. Espero, um dia, escrever para ti. Resgatar todas as palavras bonitas, todos os valores indispensáveis e todas as alegrias possíveis. Mas o carrossel não pára de girar. Sinto, invariavelmente, o tempo a escorrer entre os dedos, como areia fina. E não adianta atrasá-lo. Sabes, filha, todo o bem que te quero não cabe ao certo dentro de mim, é mais avassalador que um tropel de cavalos ou um manancial de emoções. E sim, tu és a fonte. No primeiro dia sem ti eu só queria fugir dali. Não senti que era mais forte, por ti. Senti que tinha de ser, que é assim que a vida corre, que o mundo não se compadece de quem traz o coração nas mãos. No primeiro dia sem ti, chorei. E surgiu, implacável, na minha cabeça esta dúvida: se sou tão feliz contigo, como é que posso chorar? No segundo dia sem ti, jurei não pensar tanto. Mas até hoje ainda não cumpri. E ainda choro, e chorarei.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Lamento de Calipso

tim buckley | once i was

and though you have forgotten
all of our rubbish dreams
i find myself searching
through the ashes of our ruins
all the days when we smiled
and the hours i ran wild
with the magic of our eyes
and the silence of our words

Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.

Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.

A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.

Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
regressar ao rijo barro dos Domingos
em que não te conhecia,
ao supor de suas tardes

Quando ainda não sabia
Da dureza do cimento, nem dos modos
De quebrar e ser quebrado.

José Miguel Silva

domingo, 11 de janeiro de 2015

Este ódio ao mundo que é amor eterno

leonard cohen | suzanne

É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada

no mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta

e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito

e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal

se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
mas novamente dói a dor no peito

e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro

onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida

a que chamamos coisa e porém amamos
sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale

e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos

para além do verso e do corpo gasto
sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos

esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno

António Carlos Cortez