Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos - e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas
Sonho com uma casa claustrofóbica,
um emprego anónimo e mecânico
numa terra sem presente nem futuro;
sonho ser impotente e já desonerado
de qualquer prova da minha existência;
sonho-me em silêncio, quase pétreo,
e sem ninguém que me trate por tu;
sonho-me a viver apenas para o relógio,
pontualíssimo a abrir e fechar portas
e persianas e caixas e olhos;
sonho-me remediado de dinheiro, à justa,
cozendo uma cavala, descascando uma maçã,
sem que a maçã seja mais que uma maçã;
sonho-me a apagar a luz atrás de mim,
tacteando no escuro uma parede escura,
sem memória de qualquer outra parede,
sonho-me a adormecer em Maio e acordar em Setembro
para escapar à agressão do sol;
sonho-me a beber apenas água
e a tomar comprimidos para os rins
e a urinar dolorosamente pouco;
e sonho mais: sonho que nunca te vi.
Deixas rasto no meu peito durante horas. Dou com
cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus
dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel. Procuro-te
nas esquinas dos instantes que passam. Reconheço-te
no vinco que a ternura deixa na carne do peito do
meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina,
de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente
teu, igualmente meu, reflectido na montra de
uma loja do nosso sono.
Vivi nesta casa muitos anos.
Agora mudaram já de certo a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.
Mudaram os móveis
deitaram fora as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.
Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.
Esta é a pressão de uma mão tímida, este é o aroma dos cabelos que esvoaçam,
Este é o roçar dos meus lábios nos teus, este é o murmúrio do desejo,
Esta é a profundeza e a altura distantes reflectindo o meu próprio rosto,
Esta é a meditativa fusão de mim próprio, e a saída outra vez.
Achas que tenho algum propósito obscuro?
Sim, tenho, como o têm as chuvas do quarto mês, e o tem a mica sobre as rochas.
Pensas que quero assombrar?
A luz do dia assombra? O pisco-ferreiro madrugador que chilreia nos bosques assombra?
Eu assombro mais do que eles?
Esta é a hora das minhas confidências.
Talvez não as faça a todos, mas a ti farei.
Na noite anterior ao primeiro dia sem ti não consegui dormir. Olhava para ti como quem protege um tesouro abandonado, na esperança de conseguir decorar as tuas mãos pequeninas ou guardar no peito os teus suspiros, de olhos fechados. De vez em quando sorris e é tão bom. Agora já não choras por causa dos pesadelos mas, ainda assim, deixo-me ficar acordada. Gosto de ver-te assim sossegada. Porque é nestas alturas que o meu coração encontra algum tempo para se acalmar. O corpo ainda se arrasta de cansaço em cansaço, a cabeça não dá tréguas e exige e comanda e ordena. O corpo implora descanso, o coração estica e alarga e inunda tudo. A razão, quase sempre, foge para sítio incerto e não cala tudo o que não se deve dizer. Deixei de escrever. Espero, um dia, escrever para ti. Resgatar todas as palavras bonitas, todos os valores indispensáveis e todas as alegrias possíveis. Mas o carrossel não pára de girar. Sinto, invariavelmente, o tempo a escorrer entre os dedos, como areia fina. E não adianta atrasá-lo. Sabes, filha, todo o bem que te quero não cabe ao certo dentro de mim, é mais avassalador que um tropel de cavalos ou um manancial de emoções. E sim, tu és a fonte. No primeiro dia sem ti eu só queria fugir dali. Não senti que era mais forte, por ti. Senti que tinha de ser, que é assim que a vida corre, que o mundo não se compadece de quem traz o coração nas mãos. No primeiro dia sem ti, chorei. E surgiu, implacável, na minha cabeça esta dúvida: se sou tão feliz contigo, como é que posso chorar? No segundo dia sem ti, jurei não pensar tanto. Mas até hoje ainda não cumpri. E ainda choro, e chorarei.
Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.
Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.
A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.
Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
regressar ao rijo barro dos Domingos
em que não te conhecia,
ao supor de suas tardes
Quando ainda não sabia
Da dureza do cimento, nem dos modos
De quebrar e ser quebrado.
o nosso mais belo dever
é imaginar que há um labirinto
e um fio.
nunca daremos com o fio;
talvez o encontremos e o percamos
num acto de fé,
num ritmo, no sono,
nas palavras que se chamam filosofia
ou na mera e simples felicidade.