sábado, 18 de abril de 2015

Eu tenho raiva à ternura. Eu tenho raiva de ter raiva à ternura. Eu tenho a doença da ternura por ter raiva. Eu tenho tudo excepto a ternura. Eu não tenho ternura e sofro de inveja de quem tem ternura. eu já só tenho raiva.



























otis redding | try a little tenderness

Deixas rasto no meu peito durante horas. Dou com
cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus
dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel. Procuro-te
nas esquinas dos instantes que passam. Reconheço-te
no vinco que a ternura deixa na carne do peito do
meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina,
de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente
teu, igualmente meu, reflectido na montra de
uma loja do nosso sono.

Manuel Cintra

segunda-feira, 6 de abril de 2015

And me i wait in charming town to gain my love as one

the white buffalo | the house of the rising sun 

Vivi nesta casa muitos anos.
Agora mudaram já de certo a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.
Mudaram os móveis
deitaram fora as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.
Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.

João Miguel Fernandes Jorge

segunda-feira, 30 de março de 2015

Esta é a hora das minhas confidências
















jeff buckley | hallelujah

Esta é a pressão de uma mão tímida, este é o aroma dos cabelos que esvoaçam,
Este é o roçar dos meus lábios nos teus, este é o murmúrio do desejo,
Esta é a profundeza e a altura distantes reflectindo o meu próprio rosto,
Esta é a meditativa fusão de mim próprio, e a saída outra vez.

Achas que tenho algum propósito obscuro?
Sim, tenho, como o têm as chuvas do quarto mês, e o tem a mica sobre as rochas.

Pensas que quero assombrar?
A luz do dia assombra? O pisco-ferreiro madrugador que chilreia nos bosques assombra?
Eu assombro mais do que eles?

Esta é a hora das minhas confidências.
Talvez não as faça a todos, mas a ti farei.

Walt Whitman 

terça-feira, 3 de março de 2015

Oh my mama, she gave me these feathered breaths













alela diane | oh my mama

Na noite anterior ao primeiro dia sem ti não consegui dormir. Olhava para ti como quem protege um tesouro abandonado, na esperança de conseguir decorar as tuas mãos pequeninas ou guardar no peito os teus suspiros, de olhos fechados. De vez em quando sorris e é tão bom. Agora já não choras por causa dos pesadelos mas, ainda assim, deixo-me ficar acordada. Gosto de ver-te assim sossegada. Porque é nestas alturas que o meu coração encontra algum tempo para se acalmar. O corpo ainda se arrasta de cansaço em cansaço, a cabeça não dá tréguas e exige e comanda e ordena. O corpo implora descanso, o coração estica e alarga e inunda tudo. A razão, quase sempre, foge para sítio incerto e não cala tudo o que não se deve dizer. Deixei de escrever. Espero, um dia, escrever para ti. Resgatar todas as palavras bonitas, todos os valores indispensáveis e todas as alegrias possíveis. Mas o carrossel não pára de girar. Sinto, invariavelmente, o tempo a escorrer entre os dedos, como areia fina. E não adianta atrasá-lo. Sabes, filha, todo o bem que te quero não cabe ao certo dentro de mim, é mais avassalador que um tropel de cavalos ou um manancial de emoções. E sim, tu és a fonte. No primeiro dia sem ti eu só queria fugir dali. Não senti que era mais forte, por ti. Senti que tinha de ser, que é assim que a vida corre, que o mundo não se compadece de quem traz o coração nas mãos. No primeiro dia sem ti, chorei. E surgiu, implacável, na minha cabeça esta dúvida: se sou tão feliz contigo, como é que posso chorar? No segundo dia sem ti, jurei não pensar tanto. Mas até hoje ainda não cumpri. E ainda choro, e chorarei.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Lamento de Calipso

tim buckley | once i was

and though you have forgotten
all of our rubbish dreams
i find myself searching
through the ashes of our ruins
all the days when we smiled
and the hours i ran wild
with the magic of our eyes
and the silence of our words

Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.

Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.

A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.

Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
regressar ao rijo barro dos Domingos
em que não te conhecia,
ao supor de suas tardes

Quando ainda não sabia
Da dureza do cimento, nem dos modos
De quebrar e ser quebrado.

José Miguel Silva

domingo, 11 de janeiro de 2015

Este ódio ao mundo que é amor eterno

leonard cohen | suzanne

É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada

no mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta

e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito

e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal

se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
mas novamente dói a dor no peito

e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro

onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida

a que chamamos coisa e porém amamos
sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale

e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos

para além do verso e do corpo gasto
sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos

esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno

António Carlos Cortez

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Mera e simples felicidade


















over the rhine | i want you to be my love

o nosso mais belo dever
é imaginar que há um labirinto
e um fio.
nunca daremos com o fio;
talvez o encontremos e o percamos
num acto de fé,
num ritmo, no sono,
nas palavras que se chamam filosofia
ou na mera e simples felicidade.

Jorge Luis Borges

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Eu às vezes embarco em conversas banais
























jorge palma | frágil

faz hoje oito dias passei a tarde no quarto
arrumando sentimentos (telefonemas
demorados caixotes de canto cheiíssimos)

o que trouxe a chave de casa as portas
do primeiro beijo. no outono caem as
folhas da estante e os livros ficam nus

solto uma fotografia entre o armário e
a parede investindo na surpresa de te
encontrar por acaso na próxima arrumação
do quarto. traço círculos a vermelho

no calendário de parede (sem pressa
de consultar os riscos dentro da mão)
os gatos sempre se deitam sobre o papel
mais necessário

João Luís Barreto Guimarães

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Love comes to me
























bonnie prince billy | love comes to me

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá.
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono.
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou

Ruy Belo

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

I've been so alone, you see















iron and wine | love vigilantes

às vezes
sinto que perdi os teus melhores anos

os melhores
são aqueles em que entendemos as coisas
pela metade

meia ciência sobre uma planta
metade do Homero lido
meio sonho numa caminhada ao entardecer
meio futuro envolvido em mistério
por não se entender metade
do passado

agora tudo fica difícil
entre nós

porque eu sei como Ulisses regressou
e tu tens o teu jardim
feito de tantas orquídeas como amantes
e todos floriram
quando deveriam florir
e morreram
quando deveriam morrer

mas eu posso dar-te a minha mão
e levar-te a comer os pêssegos onde eles
crescem pela primeira vez

e o reino não morrerá porque teremos a memória
das nossas mãos dadas e eternas
na noite iluminada anel por anel

se ainda quiseres
meu amor

fazer meio caminho até mim

Mário Osório