quarta-feira, 26 de março de 2014

Coragem

















antony & the johnsons | another world

a noite deixou-me outra vez transtornada
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza
que significavam alguma coisa, mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.
andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.
nunca ninguém tem a certeza de nada,
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.
agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. mas no fundo
somos doces como turkish delight
numa lata cheia de pregos.

Judith Hergberg

terça-feira, 25 de março de 2014

Are you made of stone?

















the stone roses | made of stone

- É o que tu achas? Por que é que julgas que eu nunca choro?
- Tu não morres o suficiente para poder chorar.

Jack Kerouac

quarta-feira, 19 de março de 2014

Os estatutos do amor




















tindersticks | all the love

1. (Direito à Possibilidade)
Que todo o abraço seja tão contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão nos meus cabelos.

2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que a minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.

3. (Direito à Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume e sobreviver à sua acidez sem as desflorar.
Que o prazer não precisa de extrema-unção mas que a unção do prazer seja extrema.

4. (Direito à Perfeição)
Que a palavra “amor” nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.

Joana Serrado

segunda-feira, 17 de março de 2014

Felizes os normais















the divine comedy | if

Felizes os normais, esses seres estranhos,
Os que não tiveram uma mãe louca, um pai bêbedo, um filho delinquente,
Uma casa em lado nenhum, uma doença desconhecida,
Os que não foram calcinados por um amor devorante,
Os que viveram os dezassete rostos do sorriso e um pouco mais,
Os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
Os satisfeitos, os gordos, os lindos,
Os rin-tin-tins e os seus sequazes, os que claro que sim, faça favor,
Os que ganham, os que são queridos até ao punho,
Os flautistas acompanhados por ratos,
Os vendedores e os seus compradores,
Os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos,
Os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
Os delicados, os sensatos, os finos,
Os amáveis, os doces, os comestíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.

Mas que abram alas aos que fazem os mundos e os sonhos,
As ilusões, as sinfonias, as palavras que nos desbaratam
E nos constroem, os mais loucos que as suas mães, os mais bêbedos
Que os seus pais e mais delinquentes que os seus filhos
E mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes deixem o seu sítio no inferno, e basta.

 Roberto Fernández Retamar 

domingo, 9 de março de 2014

Could you stand in my way?















micah p. hinson | stand in my way

E dói-me esse rio de já me não amares
de já me não quereres assim como eu te quero
de não sobressaltares porque sou eu que te espero
em esquinas de lágrima ou sorriso

Manuel Cintra

A eternidade é a bebedeira dos desesperados





















pj harvey | the dancer

Explode:
as mãos traçam um som insuportável:
a história pára nesse gesto
mas recomeça um pouco mais à frente.
O que sobra de um corpo
é a silenciosa queda dos destroços.
O trigo escurece, as rêses comem a própria carne,
e os gafanhotos anunciam a manhã do ódio:
o desenho do tempo fica dia a dia mais nítido.

os vidros resguardam-no do clamor
e nos vasos de begónias floresce o néon.
Sentado à secretária, o homem risca uma palavra,
leva as mãos aos lábios,
medita,
e reescreve a morte.

como se diz este último resíduo,
estes corpos que irradiam morte,
o anónimo de uma luz insuportável?
como se diz uma palavra
meticulosamente destruída,
estes sons desavindos?
ou uma criança que não sabe correr?

a eternidade é a bebedeira dos desesperados:
viagem rápida, dia em estilhas
que acaba em três ou quatro gotas
no vidro da janela:
insectos esborrachados contra um pára-brisas.

é preciso decifrar os escombros.

Rui Nunes

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Hay un trozo de luz en esta oscuridad para prestarme calma





bebe | siempre me quedará

Esta mulher outrora era feita de carne
sadia e firme: quando esperava um filho
fechava-se, escondida, e murchava sozinha.
Não gostava de se mostrar deformada na rua.
Nas outras ocasiões (era jovem e sem querer
fez muitos filhos) passava na rua
com um andar seguro e sabia gozar cada instante.
Os vestidos são vento nas tardes de Março
e colam-se e ondulam à volta das mulheres que passam.
O seu corpo de mulher movia-se seguro no vento
que se esvaía deixando-o mais forte. Não tinha outro bem
a não ser o corpo, hoje consumido por tantos filhos.

Nas tardes de vento espalha-se um odor de seivas,
o cheiro que tinha em jovem o corpo
por baixo dos vestidos supérfluos. Um sabor a terra molhada
que em Março volta sempre. Na cidade, mesmo onde não há avenidas
e nem chega com o sol um sopro de vento,
o seu corpo vivia, exalando sucos
fermentados, entre muros de pedra. Com os anos também ela,
que alimentou outros corpos, se quebrou e dobrou.
Não é bonito vê-la, perdeu toda a força;
mas, dos muitos, uma filha volta a passar
nas ruas, à tarde, e a ostentar ao vento
sob as árvores, sadio e firme, o seu corpo que vive.

E há um filho que deambula e sabe estar sozinho
e sabe divertir-se sozinho. Mas olha-se nas montras,
satisfeito com a maneira como leva pelo braço
a companheira. Gosta, com um jeito dos músculos,
de a puxar para si e que ela resista e de a beijar no pescoço.
Gosta sobretudo, depois de gerar naquele corpo,
de o deixar murchar e voltar a estar sozinho.
Um abraço fá-lo unicamente sorrir e um filho
írrita-lo-ia. Sabe-o a rapariga e espera,
e prepara-se para esconder o ventre deformado
e entrega-se-lhe, complacente, e admira a força
daquele corpo que serve para fazer tantas outras coisas.

Cesare Pavese

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

My poetry was lousy, you said






















joan baez | diamonds and rust

Porque a poesia, verdadeiramente, tem esta tarefa sublime: pegar na dor que espuma e ronca na nossa alma e sossegá-la, transfigurá-la na calma suprema da arte, como fazem os rios ao desaguar na vastidão celeste do mar. A poesia é uma catarse da dor, como a imensidão da morte é uma catarse da vida.

 Antonia Pozzi

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A gralha negra em tempo de chuva



marianne faithfull | this little bird

Lá no alto, num ramo firme
arqueia-se uma gralha negra toda molhada
arranjando e voltando a arranjar as penas à chuva.
Não espero qualquer milagre
nem nada

que venha lançar fogo à paisagem
no interior dos meus olhos, nem procuro
mais no tempo inconstante qualquer desígnio,
mas deixo as folhas manchadas cair conforme caem,
sem cerimónia ou maravilha.

Embora – admito-o – deseje
ocasionalmente alguma resposta
do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:
uma certa luz pode ainda
surgir incandescente

da mesa da cozinha ou da cadeira
como se um fogo celestial tornasse
seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,
assim consagrando um intervalo
de outro modo inconsequente

por nos dar grandeza e glória,
ou até amor. De qualquer modo, caminho agora
atenta (pois isso poderia acontecer
mesmo nesta paisagem triste e arruinada); descrente,
mas astuta, ignorante

de que um anjo se decida a resplandecer
repentinamente a meu lado. Apenas sei que uma gralha
ordenando as suas penas negras pode brilhar
de tal maneira que prenda a minha atenção, erga
as minhas pálpebras, e conceda

um breve repouso com medo
de uma neutralidade total. Com sorte,
viajando teimosamente por esta estação
de fadiga, acabarei
por juntar um conjunto

de coisas. Os milagres acontecem
se gostares de invocar aqueles espasmódicos
gestos de luminosos milagres. A espera recomeçou de novo,
a longa espera pelo anjo,
por essa rara, fortuita visita. 

Sylvia Plath

Quando para sempre julguei que te perdia














tresspassers william | my hands up

Não preciso mas tu sabes como eu sou
Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
Essa névoa contemporânea do medo miudinho
Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
Tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu,
A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
E profunda: sem braços e agora sem mais nada.
Não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos ─ ,
Ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
O navio no mar parado, parado: completamente.
Parado como dizer? Não dizer, eu sou uma vida
Medonha e múltipla. E agora descanso
Deitado nestas mãos que mexem
Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
P’la manhã.

Rui Costa