quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O teu peito, a minha casa

olöf arnalds & björk | surrender

Já não me lembro como se escrevem cartas de amor. Os telegramas estão fora de moda por isso o que quero dizer há-de nascer na cor dos meus olhos, vais certamente reconhecê-lo. Evidentemente, estas são palavras cheias de pressa como se a minha urgência fosse também ela breve e telegráfica.

Então: sabes, hoje durante todo o dia as gaivotas cantaram sobre a casa. Esses sons invadem-me o sono, há um ar pesado cheirando a chuva que se prende ao vidro grande da janela do quarto e que cai abandonado no édredon. Estou a dormir e a gata aninhou-se entre mim e a minha solidão. Despertei ao som de todos estes gritos, uma tontura que deixa um rasto de agonia, como vou dizê-lo? É uma vaga de palavras que o meu corpo quer dizer-te, uma vaga salgada de lágrimas por cair.

Eu sei. Não deveria dizer da solidão. Existes tu. E o amor. Existe esta gata insolente e existe a ávida vontade de dias futuros. É que nasceu-me isto na cor dos olhos e reconheci-o quase de imediato. A vida é esta coisa meio pesada, por vezes com um cheiro mofento, de gritos, de mal de amar. No entretanto vou escrevendo palavras soltas para não esquecer, imagino que as escrevo nas tuas costas com a ponta dos dedos, e quando as palavras se soltam em carícias o corpo todo parece ir atrás delas...

Por exemplo, se eu disser sons roucos no meio da noite é porque o meu corpo tem medo. Tenho medo do medo, de sombras que são só sombras. Contemplo as sombras das minhas mãos e os nós dos dedos, num desses raros momentos a que chamo meus. Depois o tempo esgota-se. Tudo se tornou terrivelmente importante, a infância fugiu a correr. Acordei com isto a transbordar-me nos olhos, digo-te, com palavras dentro da boca e então sobraram-me as mãos para as escrever já que tu não estás aqui para me ouvir até adormeceres. Tanta coisa a acontecer. E depois falamos todos ao mesmo tempo, temos coisas importantes para fazer. Mas nada do que eu digo ou faço é mais importante do que isto:  é urgente refazer o corpo e inventar uma história que sobreviva às ausências, aos ossos roídos pela noite e à carne que os dias vão esmagando. É por detrás dos olhos que sobrevivem as palavras importantes. Luz e cor como palavras. São agora esses os meus olhos.  

Por exemplo: como saber que a desilusão é o único início possível para todas as coisas importantes. É importante dizer do medo, da alma presa aos muros, dos pássaros de asas negras. E esta minha incapacidade de dizer as coisas importantes. Como cair desamparada dentro da palavra vida. Deixar a língua tocar-te o céu da boca e sentir os olhos caírem na perfeição do fim do dia. Dói-me o lado direito do peito numa espécie de dor difusa que se propaga e agarro-me com força aos lençóis tentando encontrar um chão. É quando acordo em sobressalto e tento combater a angústia e dormir envolta num abraço hipnótico. A gente cai do sono como quem cresce, não é? Depois o dia irrompe com violência e o corpo recorda-se dessa luz branca.

O sofá desagua sob os meus olhos. Há marcas nossas no sofá, sabias, marcas que denunciam o peso dos nossos corpos, o peso da eternidade. Tu e eu. Eu e tu. O sofá castanho. Não quero dizer nada verdadeiramente importante. Supõe que eu tenho uma alma de asas negras disfarçada neste sorriso largo que sossega os desconhecidos. Talvez a minha memória seja esta coisa, metade medo-metade concha, e o meu corpo guarde o teu cheiro que se me pega às mãos e me faz escrever. Tu foste embora e levaste contigo os cavalos a correrem no peito. E o meu corpo é isto: guarda lugares, inícios, secretas condenações do maravilhoso, pérolas e mar. Sou um mar salgado à tua espera, somos um homem e uma mulher, encontrámo-nos algures nesse sítio onde a minha alma subitamente se desfez em pó. 

E não existem prodígios, só tu e eu e esta história. Um início a pôr-nos à prova todos os dias, um começo doloroso que ainda faz valer a pena todas as dores do mundo, mesmo que o fim nos pareça, às vezes, tão evidente.

Imagina que não há forma de escapar a isto, que o equívoco que nos juntou se perpetua e é a história que vale a pena ser contada por detrás dos olhos, são estas as palavras que merecem ser gritadas da varanda abaixo para que toda a gente as oiça. Supõe que dos meus dedos escorre um grito e que esse grito só pode ser de alegria. Sim, eu sei que não existem milagres, nem génios ou fadas-madrinhas. Mas ainda assim eu amo-te. Essa verdade será sempre o melhor de tudo: a nossa fortaleza. E o teu peito como a minha casa.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Like a little girl



















jeff buckley | just like a woman

There is nothing to be afraid of,
it is only the wind
changing to the east, it is only
your father the thunder
your mother the rain

In this country of water
with its beige moon damp as a mushroom,
its drowned stumps and long birds
that swim, where the moss grows
on all sides of the trees
and your shadow is not your shadow
but your reflection,

your true parents disappear
when the curtain covers your door.
We are the others,
the ones from under the lake
who stand silently beside your bed
with our heads of darkness.
We have come to cover you
with red wool,
with our tears and distant whipers.

You rock in the rain's arms
the chilly ark of your sleep,
while we wait, your night
father and mother
with our cold hands and dead flashlight,
knowing we are only
the wavering shadows thrown
by one candle, in this echo
you will hear twenty years later.

Margaret Atwood

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Uns corpos são como flores, outros como punhais









radiohead | lucky

Uns corpos são como flores,
Outros como punhais,
Outros como fitas de água;
Mas todos, cedo ou tarde,
Serão queimaduras que em outro corpo aumentem,
Convertendo pelo fogo uma pedra num homem.

Mas o homem agita-se em todas as direcções,
Sonha com liberdades, compete com o vento,
Até que um dia se apaga a queimadura,
Volta a ser pedra no caminho de ninguém.

Eu, que não sou pedra, mas caminho
Que cruzam ao passar os pés nus,
Morro de amor por todos eles;
Dou-lhes meu corpo para que o pisem,
Mesmo que lhes leve a uma ambição ou a uma nuvem,
Sem que nenhum compreenda
Que ambições ou nuvens
Não valem um amor que se entrega.

Luis Cernuda

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Construir con palabras un puente indestructible

lhasa de sela | con toda palabra

Mi táctica es
Mirarte aprender como sos
quererte como sos.

Mi táctica es hablarte
y escucharte construir con palabras
un puente indestructible.

Mi táctica es quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé con qué pretexto
pero quedarme en vos.

Mi táctica es ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos simulacros
para que entre los dos
no haya telón ni abismos.

Mi estrategia es en cambio
más profunda y más simple.

Mi estrategia es que un día cualquiera
no sé cómo ni sé con qué pretexto

por fin me necesites.

Mario Benedetti

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Amor amor amor
















yeah yeah yeahs | maps

1

fosse apenas o desespero da
ocasião da
descarga de palavreado

perguntando se não será melhor abortar que ser estéril

as horas tão pesadas depois de te ires embora
começarão sempre a arrastar-se cedo de mais
as garras agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos os velhos amores
órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus
sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do que nunca
com a fome negra a manchar-lhes as caras
a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado
nem nove meses
nem nove vidas

2

a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a revolver outra vez no coração
amor amor amor pancada da velha batedeira
pilando o soro inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem

3

a não ser que te amem

Samuel Beckett

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Muitas mulheres transformam-se em paisagens






















sean riley & the slowriders | this woman

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria

(já outras, são apenas ramos secos tombados pelo sol.)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

And there in the bookstore, she will thumb over my poems





















nick cave & the bad seeds | the ship song

First, I would have her be beautiful,
and walking carefully up on my poetry
at the loneliest moment of an afternoon,
her hair still damp at the neck
from washing it. She should be wearing
a raincoat, an old one, dirty
from not having money enough for the cleaners.
She will take out her glasses, and there
in the bookstore, she will thumb
over my poems, then put the book back
up on its shelf. She will say to herself,
"For that kind of money, I can get
my raincoat cleaned." And she will.

Ted Kooser

(*)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Coisas tontas














beck | true love will find you in the end

Eu sempre perguntava coisas tontas,
é certo. Perguntava, por exemplo,
se voltarias a amar-me tanto
como nos dias do amor mais jovem,
ou mesmo mais, ou mesmo mais que nunca,
mesmo mais que a ninguém, e se serias
capaz de confessá-lo ante qualquer.
É certo, perguntava coisas tontas,
não merecia uma resposta séria.
Aquele ser, mais escuro que a noite
mais escura da alma, respondia
sem olhar-me nos olhos: «Nunca mais.»

Amalia Bautista

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Permanente assombro





















a silver mt zion | mountains made of steam

Às vezes, pequenos grandes terremotos 
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant’Anna

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Let's just breathe






















pearl jam | just breathe

Há ainda este inverno que não se desentranha de mim, que parece querer ficar para lá de toda a felicidade e é silêncio, um assustador silêncio que nos invade os dias e as noites e vai cobrindo o meu cansaço. Há esta frieza no corpo que permanece, que exige atenção mas esquece a tua mão no meu cabelo e o meu coração indefeso. Há ainda esta dor sem nome nem queixume, o suspiro guardado no fundo do peito que implora uma saída e não sabe como nem porquê. Eu a medir a tua respiração, a conviver lado-a-lado com uma revolta mesquinha que insiste baixinho em destruir tudo, o ciúme a minar o amor e eu a ver, a deixar-me arrastar por ele. Vai ficar tudo bem, era só isto, bastava uma palavra tua, mais nada. Houve um tempo em que o entusiasmo não escasseava, - e tu - tu ainda sorrias para mim. Depois de todos os vestidos brancos. E eu agora na minha tão breve esperança de que ainda me ames. Mas ficámos só nós dois, eu e o vazio, a inventar sonhos antigos.