sexta-feira, 22 de março de 2013

Everything is everything, but you're missing


cowboy junkies |  you're missing (bruce springsteen cover)

Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

quero morrer
com uma overdose de beleza

e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

Al Berto

segunda-feira, 11 de março de 2013

Esto es amor

iron and wine | the sea and the rhythm

Esto es amor, esto es amor, yo siento
en todo átomo vivo un pensamiento.

Yo soy una y soy mil, todas las vidas
pasan por mí, me muerden sus heridas.

Y no puedo ya más, en cada gota
de mi sangre hay un grito y una nota.

Y me doblo, me doblo bajo el peso
de un beso enorme, de un enorme beso.

Alfonsina Storni

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

I send my love to you. I send my hands to you. I send my clothes to you. I send my nose to you. I send my trees to you. I send my pleas to you. Won't you send some back to me?


palace brothers | i send my love to you

Passeámos a noite inteira entre sândalos disseste-me
que eram sândalos e eu acreditei toda a noite
que passeámos entre sândalos naquela noite de março
na noite em que passeámos sem nos olharmos
num bosque de sândalos num mar de sargaços
disse-te eu imerso na noite em que não acreditava
quando acordaste e eu acordei a teu lado
sem noite sem sândalos sem mar em que acreditar
apenas a justa medida de um olhar no lado sombrio
do teu corpo desperto que sonhou no tom adequado
sobre um chão de terra virgem acabado de semear.

Carlos Alberto Machado

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Esse medo infantil de ter pequenas coragens


















the veils | nowhere man

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Amamos o que não conhecemos





















fink | this is the thing

Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que foi arredores.
Os antigos que não nos decepcionarão mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O Oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos, com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.

Jorge Luís Borges

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

My funny valentine















johnny cash & june carter | ring of fire


(... Pero también
la vida nos sujeta porque precisamente
no es como la esperábamos

Jaime Gil De Biedma)

Cheguei a casa há pouco e amanhã
celebrarei contigo pla primeira vez
esse dia que alguém convencionou
ser para os namorados: eu e tu,
dois seres quase sonâmbulos,
afogados em histórias mal cicatrizadas
que extravasam ao longo de conversas
plas estradas nocturnas por onde fugimos
da vida que nos dói: velhos amores
refulgindo na tua memória,
na minha fantasia que os volta a viver
em ti, por ti, como se também eu
ressentisse na pele o sabor desses beijos
esvaindo-se no tempo, que lhes toca,
ao de leve, com lábios de veludo,
e os arrasta num caudal de espectros
de vagas silhuetas, na penumbra
que foi a minha vida até chegar a ti.

Fernando Pinto do Amaral

(*)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

I was a crying and i was a waiting and i stopped hoping that you'll come back to me















cat power | crying waiting hoping

Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. 
Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer. 
Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda. 
Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.

Clarice Lispector 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Espelho















beck | i'll be your mirror

Sou de prata e exacto. Não faço pré-julgamentos.
O que vejo engulo de imediato
Tal como é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, simplesmente verídico —
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Reflicto todo o tempo sobre a parede em frente.
É rosa, manchada. Fitei-a tanto
Que a sinto parte do meu coração. Mas cede.
Faces e escuridão insistem em separar-nos.

Agora eu sou um lago. Uma mulher se encosta a mim,
Buscando na minha posse o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o brilho e a lua.
Vejo as suas costas e reflicto-as na íntegra.
Ela paga-me em choro e em agitação de mãos.
Eu sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã a sua face alterna com a escuridão.
Em mim se afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrível.

Sylvia Plath

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Essa última parcela de ilusão
















bonnie prince billy | cursed sleep

Foi quando tivemos essa primeira conversa sobre nós que disseste: Porque é que as mulheres se desgostam de mim?.
Eu pensei que estavas a brincar, era uma ideia que nunca me tinha passado pela cabeça, poderia alguém desgostar-se de ti, mas tu insististe, e havia na tua voz um leve traço que não era de amargura mas de cansaço, creio que, naquele momento, tu acreditavas sinceramente que era isso que se passava, mas parecia-me estranho que o confessasses, afinal um homem tem meia dúzia de ideias enterradas na cabeça, como é que um homem pode admitir que as mulheres se desgostam dele, tu riste-te divertido, e disseste, se calhar é porque não sou bem um homem, e isso era ainda mais absurdo, eu nunca tinha conhecido um homem como tu, mas também, é verdade, eu não tinha idade para ter conhecido tantos homens como isso, fizeste-mo notar, mas aos poucos fui percebendo o que querias dizer com o desgosto, e não era um acto de modéstia, pelo contrário, dentro de ti havia qualquer coisa que te murmurava a mais humilhante de todas as perguntas, como é que uma mulher se pode desgostar de mim, e era isso que tu não suportavas, isso era muito pior que todas as traições e todas as infidelidades, que todos os divórcios e todas as rupturas, no fundo tu gostarias que mesmo as mulheres a quem tivesses dito acabou-se conservassem por ti um sentimento mais profundo, que de alguma forma fizesses parte da vida delas, mas não exactamente da forma como uma pessoa faz parte da vida passada de outra, isto é, arrumada na memória, antes como uma imagem recorrente (esta palavra é tua, desculpa), uma espécie de saudade que o tempo transforma mas que nunca se consegue anular. 

E eu disse-te que não, que não era possível, não sei bem se porque achava mesmo que não era possível, ou se porque intuí que talvez fosse isso que querias ouvir, mas jurei-te que eu gostava de ti, há semanas, meses, dias e noites que vivia em função de ti, dos teus desejos, da tua alegria, do teu sorriso e também, eu podia dizer-to, dos teus beijos, da forma como os teus dedos me tocavam ao de leve nos ombros e lentamente me percorriam até à cintura, e da forma como o teu corpo se colava ao meu, fazes-me tão feliz, disse-te, eu até talvez nunca tivesse sabido o que era a felicidade, nunca tinha amado ninguém assim, e tu franzias o sobrolho, repetias-me, nunca se diz nunca, e rias-te, cada um de nós ama sempre absolutamente quando ama, e parece que nunca houve nada assim, e eu exasperava-me, porque é que havias de relativizar tudo, de reconduzir todos os absolutos de que a nossa cabeça está cheia até à insuportável indiferenciação do mundo das pessoas crescidas, eu disse pessoas crescidas, e tu riste-te de novo, mas sem condescendência, apenas muito casual, e disseste, repara, é esse o mundo definitivo, aquele em que se entra para nunca mais se sair, o resto, a infância, a adolescência são etapas, estações, disseste estações, lembro-me perfeitamente, e eu segui um raciocínio qualquer, e de repente tinha-me perdido de todo da conversa e ouvi a minha voz perguntar-te, em que estás a pensar, e tu, muito admirado, em nada, meu amor, e ficámos assim. Isso foi da primeira vez que falámos sobre nós.

Foi depois disso que percebi a tua vulnerabilidade. Eu explico: o que me intrigava em ti era a tua capacidade de defenderes uma moral da vulnerabilidade sem nunca mostrares que a tua vida também se regia por ela.

Por exemplo, falavas do ciúme, da paixão, do fanatismo das convicções, do subjectivismo e da solidariedade incondicional com os amigos e a família, e, no entanto nem uma vez eu fora capaz de te apanhar a praticar esses pequenos excessos, desvios a uma conduta socialmente virtuosa, falhas numa compleição mental moldada pelo dever-se do mundo dos da tua geração.

E, de repente, percebi que tinhas ciúmes, e que vivias desesperadamente contigo esse sentimento do qual, em última análise tinhas vergonha, e dia após dia era um mal-estar que crescia entre nós, comecei por pensar que era uma das tuas neuras, mas as tuas neuras, tão intensas, normalmente são passageiras, então assustei-me, pensei o inevitável, que estavas absolutamente farto de mim, que bruscamente tinha deixado de te interessar, até fisicamente, parecia-me, alguma coisa se tinha quebrado entre nós, com o coração apertado comecei a preparar-me para o dia em que ias voltar-te para mim muito sério e dizer, ouve, temos que ter uma conversa, há uma coisa que já ando para te dizer há uns dias, tenho estado a pensar que era capaz de ser melhor afastarmo-nos por uns tempos, preciso pensar, de perceber que rumo quero dar à minha vida, desculpa-me, eu sei que sou muito complicado, mas que queres, as minhas manias acabam por tornar-me insuportável até a mim próprio, mas não quero magoar-te e até gostava que ficássemos amigos, devia ser assim, eu tinha lido exactamente essas frases no livro de um autor português, e eu ia ficar sucumbida, não, isso é que não, eu não podia ficar sucumbida, não isso é que não, eu não podia ficar sucumbida à tua frente, ia levantar-me muito depressa, nem sequer seria capaz de te olhar de frente, ia dizer-te então adeus, e tu, espera, não tens nada para me dizer, e depois, meu querido, tu sabes como são as mulheres quando se põem a imaginar, depois haveria lágrimas e os teus olhos iam comprimir-se numa aflição, ias atrás de mim até à porta, agarravas-me no braço esquerdo, vejo a cena perfeitamente, vi-a durante esses dias tantas vezes e era sempre igual, agarravas-me no braço esquerdo e puxavas-me para ti, muito devagar, e a tua voz seria por uma vez sincera, eu queria ouvi-la como se fosse sincera, e dizias-me, preciso tanto de ti, e como de costume eu ia desfazer-me nos teus braços e tudo seria como dantes, talvez melhor, pelo menos isso eu deixava em aberto, interessava-me mais a fulgurância do meu sonho suspenso no tempo, para sempre inscrito na minha memória de ti, do que o que se poderia seguir a este momento dramático na minha imaginação.

Mas não era isso. Pelo menos dessa vez não era isso, e creio que nunca chegou a ser. Durante o tempo em que estivemos juntos, um Verão inteiro, lembras-te? Evitámos o drama, ou evitaste-o tu pelos dois, e é isso que eu dizia, a vida descrita por ti devia ser um vulcão de excessos, uma aventura no limiar do irracional, era quase uma ficção, e eu deveria ter percebido que essa é a tua maneira de viver, um romance vale mais que mil ensaios, dizias muitas vezes, e tinhas razão, pelo menos tinhas a tua razão, e é por isso que percebo o que querias dizer com a história do bêbado e da vida dele, sim, cada um vive por dentro a sua própria metade da vida convencido que é apenas uma metade, mas na realidade é a sua vida inteira, a sua vida incomunicável, sentida como coisa tão inteiramente sua que nem sequer vale a pena partilhá-la, e isto é mentira, é uma mentira moral, não se trata de não valer a pena, isso é uma desculpa com que se ilude o pavor de não se poder transmitir e partilhar, estamos tão longe uns dos outros, é isso que eu sinto, como estou longe de tudo e de ti, meu amor.

Mas dessa vez, percebi os teus ciúmes. E dei-te pretextos, suponho, mas eu era tão desajeitada nisso como noutras coisas, acho que era tão inocentemente óbvia que tu nem tinhas coragem, uma coragem estética, digamos, de levantar a questão, devias viver dentro de ti um combate feroz, mas isso era uma coisa que tu achavas que só podias resolver contigo, e eu precisava, juro-te que precisava que me dissesses qualquer coisa, que mostrasses, com toda a crueldade de que eras capaz quando te sentias ferido, que era uma ferida o que te estava a doer, eu só queria uma razão, mínima que fosse, para me lançar nos teus braços, e jurar-te a única, a mais absoluta das verdades, que te amava, que não podia conceber amar mais alguém, que o amor, tu tinhas que perceber isso, não é uma coisa que se acrescente a outras coisas que já se têm, que não consente sobreposições nem contiguidades, eu sentia isso assim de uma forma muito simples, mas não tenho a certeza de que essa não seja a melhor forma de sentir as coisas mais importantes da nossa vida. 
Mas não foi possível arrancar-te uma palavra e acho que foi aí que tudo começou.

Foi um sentimento vago, a princípio eu achava que era uma criancice, uma crise passageira, eu gostava tanto de ti, precisava de ouvir a tua voz a todas as horas do dia e isso era gostar, sim, era gostar verdadeiramente, fisicamente, percebes, sentia a tua falta nos lugares onde estava e desejava correr para casa, abraçar-te muito, ficar ali a ler e a conversar contigo, ouvíamos ópera e canções de cabaré e depois amávamo-nos, às vezes íamos jantar fora e tu bebias, ficavas num estado de euforia incontrolável, e desarmavas-te, dizias-me que me amavas e os teus olhos ficavam líquidos de felicidade, eu sei, meu amor, eu sei que era verdade, mas agora é tarde, só depois é que percebi que essa era a tua única forma possível de viveres de acordo com a tua moral desregrada de vida, que esse estímulo exterior, esse excesso, era exactamente à medida da transgressão de sentimentos que defendias, mas nessa altura não, de repente apercebia-me de que só me falavas assim quando bebias e isso mais me confirmava na convicção de que contigo nada seria nunca demasiado sério, e que esse teatro meio ébrio com que me cobrias de ternura era, ainda e sempre, uma forma de ocultares a tua indiferença, não digo indiferença, mas pelo menos a forma tão relativa como gostavas de mim.

Sentia que me amavas por fora de mim, que entre nós só existia uma precariedade feita do simples desejo de estarmos um no outro, e que isso tornava absurdo todos os sonhos que sonhara contigo, tenho pudor em escrevê-los e também agora já não interessa, mas a minha vida imaginada ficara pelo caminho e eu tentava desesperadamente perceber onde é que falhara e, era curioso, ao mesmo tempo tinha a sensação confortável de que o nosso fora um episódio sem falhas, nem tuas nem minhas, e isso revoltava-me, porque era injusto que duas pessoas tão obviamente feitas uma para a outra, desculpa a vulgaridade, se atropelassem assim, na pressa de partirem cada uma para seu lado.

Quando dei por mim, dei comigo a desejar estar contigo e a suportar mal a tua presença.
E isso talvez não fosse uma sensação nova na minha vida, apenas que, pela primeira vez, o desejo de te tocar era tão forte como a vontade de partir.

Demorei muito tempo até perceber verdadeiramente que, de uma forma ou de outra, eu tinha saído da tua vida, e tu compreendeste-o primeiro do que eu, é natural, uma vez mais encontravas-te perante uma situação reconhecível, mas eu nessa altura achava que não, que tu no fundo é que nunca tinhas querido entrar na minha vida, que pela tua cabeça nunca tinham passado projectos de que eu tivesse feito parte, tu sabes como é, meu querido, começamos por responsabilizar os outros e quando tomamos consciência de que o que está em causa somos nós, a nossa metade que é a nossa vida inteira, já deitámos tudo a perder, nem sequer somos capazes de preservar a contiguidade que está tão próxima do amor, talvez fosse isso que querias dizer quando falavas em gerir a vida como uma economia de troca, mas também essa é uma verdade que se aprende muito depois, ainda agora não me sinto preparada para a aceitar, não sei se alguma vez estarei do teu lado, mas já sei, digo isto porque na minha idade vê-se a vida só como futuro e o futuro não pode ser outra coisa que a projecção quase automática do presente.

Apetecia-me ficar por aqui, mas espera, ainda quero dizer-te uma coisa.
Lembras-te de uma noite te ter perguntado se duas pessoas podiam viver juntas em mundos diferentes?
Tu ficaste muito sério, percebi que, por qualquer razão que tinha a ver com a tua história pessoal, era uma pergunta que já te tinhas colocado a ti próprio.

Depois, quase a medo, disseste que teoricamente era uma hipótese admissível, que durante muitos anos tinhas pensado que essa era mesmo a forma mais recomendável para evitar o tédio que nasce do hábito quando a rotina se sobrepõe aos afectos, que talvez essa fosse a única forma de fazer uma relação sobreviver no tempo, mas que era preciso que na base desse entendimento houvesse uma espécie de pacto, aqui o meu domínio reservado, ali o teu, mas o pior, disseste, o pior é que, pouco a pouco, os territórios vão-se definindo até à incomunicabilidade, e os seus lugares relativos crescem até ocuparem o espaço inteiro que antes era o domínio comum dos sonhos e dos projectos, e sem sonho, tu mesmo o disseste, sem sonho não há amor que resista.

Ficaste calado muito tempo, tinhas qualquer coisa dentro de ti e eu vi que não estava lá, e senti um ciúme insuportável da tua vida, de tudo o que cabia dentro da tua vida, as tuas alegrias e o teu sofrimento, a tua mágoa injustificável e o teu sorriso sem contemplação, os romances que querias escrever e até aqueles que não sabes ainda que vais escrever.

E era isso a sensação de dois mundos separados, de dois universos que nunca poderiam sobrepor-se, de duas metades que nunca se juntariam uma à outra, dir-me-ás, mas nunca se juntam, eu sei, mas, por favor, deixa-me essa última parcela de ilusão, eu quero acreditar, ao menos por algum tempo mais, que a vida tem que ser uma e uma só, e isso, se acontecer, acontece para sempre, e fica estampado no vidro baço do nosso desejo de perdição.

Pronto. Tinhas razão, é preciso escrever para que as coisas nos apareçam com a clareza que nos serve, eu sei que tudo se torna nítido não porque os nossos olhos tenham mudado, apenas porque a escrita funciona como uma lente que apura os contornos e permite compreender os finíssimos laços que os afectos entretecem entre as pessoas.

Agora, vou deixar-te esta carta no escritório, em cima da secretária, e depois atravesso o corredor às escuras, rodo o manípulo da porta muito lentamente e vou sair sem fazer barulho. Para não te acordar.

António Mega Ferreira