Passeámos a noite inteira entre sândalos
na noite em que passeámos sem nos olharmos
num bosque de sândalos num mar de sargaços
disse-te eu imerso na noite em que não acreditava
quando acordaste e eu acordei a teu lado
sem noite sem sândalos sem mar em que acreditar
apenas a justa medida de um olhar no lado sombrio
do teu corpo desperto que sonhou no tom adequado
sobre um chão de terra virgem acabado de semear.
Una mujer y un hombre llevados por la vida,
una mujer y un hombre cara a cara
habitan en la noche, desbordan por sus manos,
se oyen subir libres en la sombra,
sus cabezas descansan en una bella infancia
que ellos crearon juntos, plena de sol, de luz,
una mujer y un hombre atados por sus labios
llenan la noche lenta con toda su memoria,
una mujer y un hombre más bellos en el otro
ocupan su lugar en la tierra.
À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias
Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.
Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.
Não invoques a de ontem porque ela já foi embora
Desde que tu partiste morreu já muitas vezes
E embora tenha renascido já nunca foi a mesma
Mais frágil mais ingénua mais tímida umas vezes
outras vezes mais sábia mais triste mais murcha
Mas sempre distinta e outra vez sempre
Às vezes conformada mais cheia do meu sangue
como se tudo fosse novo tudo recém comprado
água sol e ar e sombra
Tão resignada que até sorrio ao espelho que não
Tenho frente a mim
E outras vezes em guerra tão em guerra
que o meu tacto é punhal que me agride as veias
e as flores me ferem e o céu me criva
e até o meu próprio corpo me danifica
- Morro e volto a nascer a cada manhã
a angustiada de ontem hoje não a busques
A eufórica de hoje
talvez esta mesma noite se suicide
abraçada ao travesseiro
Porque é que deixaste de escrever?, largaste assim a pergunta a meio de um copo de vinho tinto partilhado a dois, enquanto me olhavas com esses olhos constantes de espanto, sempre capazes de me desarmar. Não te respondi, soltar uma gargalhada foi muito mais fácil. Não sei, podia contar-te a verdade que eu sei que tu adivinhas: tudo o que escrevo eu sinto. Se escrevo os teus olhos é como se estivesses aqui agora a ver-me inteira. Às vezes penso que os teus olhos não existem porque vêem sempre mais além, sabes, aqueles pequenos nadas, detalhes que mais ninguém dá conta, só tu. Não consigo deixar de sorrir quando te encontro com esses óculos redondinhos, tão mas tão velhos, a ler o jornal com a maior das atenções e o bloco de notas sempre ao lado, onde guardas viagens passadas, sonhos futuros e poesias e segredos. Não precisas de falar, os teus olhos dizem-me tudo, a maior parte do tempo. Sempre procurei alguém que falasse mais do que eu, porque o meu silêncio me aflige, tenho pavor de ficar sem assunto, que me achem sem interesse. Tretas, dizes tu, talvez seja tudo mais simples na tua cabeça. Um dia quis muito escrever sobre os teus olhos, como eles me salvaram daquela vez em que tive coragem de olhá-los mais fundo, como eles me salvam todos os dias um bocadinho, como esse azul transparente é tão bonito e tão raro. Como me fazes falta, tu e a tua alma antiga tão perto da minha. Mas escrever sobre isso seria admiti-lo a toda a gente. Escrever sou eu a ligar-me a ti, a nós, ao mundo. E os teus olhos são a minha perdição. Enquanto não escrevo: isto sou eu a fugir de ti. Faz-me ganhar tempo, isto de pensar que não estou apaixonada por ti. É tudo uma questão de perspectiva, já todos sabemos. A minha deve estar do avesso, não achas? Podes apanhar-me no próximo parágrafo, eu deixo. Tu falas, eu posso simplesmente ficar a ouvir-te pela noite dentro nessa voz tão doce.
o outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias. Eugénio de Andrade