quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Escutava o emudecimento das vozes dos pássaros







yann tiersen | j'y suis jamais allé

Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.

Adam Zagajewski

(daqui)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Uma subtil forma de cuidado










jeff buckley | morning theft

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.

Rui Costa 

sábado, 9 de dezembro de 2017

E outras vezes em guerra tão em guerra







jorge palma | disse fêmea

Não invoques a de ontem porque ela já foi embora
Desde que tu partiste morreu já muitas vezes
E embora tenha renascido já nunca foi a mesma
Mais frágil mais ingénua mais tímida umas vezes
outras vezes mais sábia mais triste mais murcha
Mas sempre distinta e outra vez sempre
Às vezes conformada mais cheia do meu sangue
como se tudo fosse novo tudo recém comprado
água sol e ar e sombra
Tão resignada que até sorrio ao espelho que não
Tenho frente a mim
E outras vezes em guerra tão em guerra
que o meu tacto é punhal que me agride as veias
e as flores me ferem e o céu me criva
e até o meu próprio corpo me danifica
- Morro e volto a nascer a cada manhã
a angustiada de ontem hoje não a busques
A eufórica de hoje
talvez esta mesma noite se suicide
abraçada ao travesseiro

Josefina Plá

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Now i've heard there was a secret chord...








jeff buckley | hallelujah

Porque é que deixaste de escrever?, largaste assim a pergunta a meio de um copo de vinho tinto partilhado a dois, enquanto me olhavas com esses olhos constantes de espanto, sempre capazes de me desarmar. Não te respondi, soltar uma gargalhada foi muito mais fácil. Não sei, podia contar-te a verdade que eu sei que tu adivinhas: tudo o que escrevo eu sinto. Se escrevo os teus olhos é como se estivesses aqui agora a ver-me inteira. Às vezes penso que os teus olhos não existem porque vêem sempre mais além, sabes, aqueles pequenos nadas, detalhes que mais ninguém dá conta, só tu. Não consigo deixar de sorrir quando te encontro com esses óculos redondinhos, tão mas tão velhos, a ler o jornal com a maior das atenções e o bloco de notas sempre ao lado, onde guardas viagens passadas, sonhos futuros e poesias e segredos. Não precisas de falar, os teus olhos dizem-me tudo, a maior parte do tempo. Sempre procurei alguém que falasse mais do que eu, porque o meu silêncio me aflige, tenho pavor de ficar sem assunto, que me achem sem interesse. Tretas, dizes tu, talvez seja tudo mais simples na tua cabeça. Um dia quis muito escrever sobre os teus olhos, como eles me salvaram daquela vez em que tive coragem de olhá-los mais fundo, como eles me salvam todos os dias um bocadinho, como esse azul transparente é tão bonito e tão raro. Como me fazes falta, tu e a tua alma antiga tão perto da minha. Mas escrever sobre isso seria admiti-lo a toda a gente. Escrever sou eu a ligar-me a ti, a nós, ao mundo. E os teus olhos são a minha perdição. Enquanto não escrevo: isto sou eu a fugir de ti. Faz-me ganhar tempo, isto de pensar que não estou apaixonada por ti. É tudo uma questão de perspectiva, já todos sabemos. A minha deve estar do avesso, não achas? Podes apanhar-me no próximo parágrafo, eu deixo. Tu falas, eu posso simplesmente ficar a ouvir-te pela noite dentro nessa voz tão doce.

(sim, a música tinha de ser esta.)

domingo, 19 de novembro de 2017

I'm living in an age that laughs when i'm dancing with the one i love but my mind holds the key











peter gabriel | my body is a cage

O teu corpo vive hoje dentro do espelho onde se perdeu o meu

Al Berto

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

So many lifeless empty hands, so many hearts in great demand










azure ray | november

De que lado viste chegar
o outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Do silêncio











peter murphy | a strange kind of love

Então por um momento os dois se apagaram na doce escuridão tão profunda que eles eram mais escuros que a escuridão, por uns instantes ambos eram mais escuros que as negras árvores, e depois tão escuro que, quando ela tentou erguer os olhos até ele, só pôde ver as ondas selvagens do universo acima dos ombros dele, e então ela disse: Sim, acho que eu também te amo.

Clarice Lispector

domingo, 22 de outubro de 2017

O amor, agora, coincide por fim com a inteligência







scout niblett | kiss

O tempo é chegado
em que já não faz mal a vida que se perde,
em tão só
uma lâmpada inútil, e a inveja se esquece.
Um tempo de perdas prudentes, necessárias,
não um tempo de chegar, mas de partir.
O amor, agora, coincide por fim com a inteligência.
Não estava longe, não era difícil.
É um tempo que não me deixa mais do que o horizonte
como medida de solidão.
Um tempo de tristeza tutelar.

Joan Margarit

Estamos tão pouco onde estamos










cat power | good woman

Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro

fechamos os olhos, sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos

mas estamos tão pouco
onde estamos

José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Escreve-me poemas que me possam matar










radiohead | fake plastic trees

– eu fumo
– eu escrevo poemas que se podem fumar
– não és o que eu procuro
– sou o alto mar
e vejo o tempo começar na sombra de uma janela que se abre na fotografia em que estás tu o Borges o Cortázar Rua Florida Richmond ao fundo e em que te estou a dizer sou o alto mar e
– posso não ser o que tu procuras
– eu nunca soube chorar, por isso espero a chuva
– a chuva não é deste planeta, não me deves esperar que não regresso ao quarto feito de regressos a que regresso sempre, sexto andar, livros com poemas a fazer de cabeceira, poemas no chão a fazer de chão e a anunciar a chuva que sempre se demora por vir de longe, e nós bem longe também da Rua Florida onde nunca chovia e se chovia não era chuva e se era chuva não nos podia tocar
– tu existes ainda que eu precise de te inventar
– tu já me inventaste agora não existo
e não durmo embora continue a comer e não durmo e sobretudo bebo até as noites mais inteiras e vejo-te mesmo quando não te vejo e bebo para que me fales ao ouvido coisas que eu não consigo perceber e não foste a única porque houve outras mas foste a única que ainda te vejo até em certas palavras que são partes do teu corpo que eu não consigo tirar de mim
– estou aqui
e estás aqui mas já não sei pronunciar o teu nome só a primeira inicial que se repete uns passos mais à frente como se a terra fosse toda mar e o mar fosse todo eu e sinto frio e espero que o frio se esqueça de mim e abro de novo a janela da fotografia que não me reconhece e toco a chuva que veio de longe e não é deste planeta com a ponta dos dedos desço por ela e abro totalmente esta janela que não me reconhece e a chuva traz-me à cama onde ainda dormes entre os meus papéis confusos e não isto não são lágrimas embora o sal
– nos teus olhos vejo coisas que só existem nos teus olhos
– demoraste ou quiseste fazer-me esperar
– eu não sou quem se deva esperar
– provavelmente vou esperar-te até depois da morte
– a morte é só um outro tempo, um outro modo de dizer as coisas
e eu não sou quem se deva esperar, que me acabo antes à porta de um prostíbulo, Paris ou Buenos Aires, como um poeta deve acabar
– nunca te disse mas acho que não te posso deixar, detesto demasiado a tua poesia
– tu detestas toda a poesia
– na verdade não detesto toda a poesia, só tenho medo
– na verdade eu não faço bem poesia, só quando te escrevo ou te ponho nua
– já não fumo, escreve-me poemas que me possam matar

Carlos Soares