segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Do silêncio











peter murphy | a strange kind of love

Então por um momento os dois se apagaram na doce escuridão tão profunda que eles eram mais escuros que a escuridão, por uns instantes ambos eram mais escuros que as negras árvores, e depois tão escuro que, quando ela tentou erguer os olhos até ele, só pôde ver as ondas selvagens do universo acima dos ombros dele, e então ela disse: Sim, acho que eu também te amo.

Clarice Lispector

domingo, 22 de outubro de 2017

O amor, agora, coincide por fim com a inteligência







scout niblett | kiss

O tempo é chegado
em que já não faz mal a vida que se perde,
em tão só
uma lâmpada inútil, e a inveja se esquece.
Um tempo de perdas prudentes, necessárias,
não um tempo de chegar, mas de partir.
O amor, agora, coincide por fim com a inteligência.
Não estava longe, não era difícil.
É um tempo que não me deixa mais do que o horizonte
como medida de solidão.
Um tempo de tristeza tutelar.

Joan Margarit

Estamos tão pouco onde estamos










cat power | good woman

Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro

fechamos os olhos, sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos

mas estamos tão pouco
onde estamos

José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Escreve-me poemas que me possam matar










radiohead | fake plastic trees

– eu fumo
– eu escrevo poemas que se podem fumar
– não és o que eu procuro
– sou o alto mar
e vejo o tempo começar na sombra de uma janela que se abre na fotografia em que estás tu o Borges o Cortázar Rua Florida Richmond ao fundo e em que te estou a dizer sou o alto mar e
– posso não ser o que tu procuras
– eu nunca soube chorar, por isso espero a chuva
– a chuva não é deste planeta, não me deves esperar que não regresso ao quarto feito de regressos a que regresso sempre, sexto andar, livros com poemas a fazer de cabeceira, poemas no chão a fazer de chão e a anunciar a chuva que sempre se demora por vir de longe, e nós bem longe também da Rua Florida onde nunca chovia e se chovia não era chuva e se era chuva não nos podia tocar
– tu existes ainda que eu precise de te inventar
– tu já me inventaste agora não existo
e não durmo embora continue a comer e não durmo e sobretudo bebo até as noites mais inteiras e vejo-te mesmo quando não te vejo e bebo para que me fales ao ouvido coisas que eu não consigo perceber e não foste a única porque houve outras mas foste a única que ainda te vejo até em certas palavras que são partes do teu corpo que eu não consigo tirar de mim
– estou aqui
e estás aqui mas já não sei pronunciar o teu nome só a primeira inicial que se repete uns passos mais à frente como se a terra fosse toda mar e o mar fosse todo eu e sinto frio e espero que o frio se esqueça de mim e abro de novo a janela da fotografia que não me reconhece e toco a chuva que veio de longe e não é deste planeta com a ponta dos dedos desço por ela e abro totalmente esta janela que não me reconhece e a chuva traz-me à cama onde ainda dormes entre os meus papéis confusos e não isto não são lágrimas embora o sal
– nos teus olhos vejo coisas que só existem nos teus olhos
– demoraste ou quiseste fazer-me esperar
– eu não sou quem se deva esperar
– provavelmente vou esperar-te até depois da morte
– a morte é só um outro tempo, um outro modo de dizer as coisas
e eu não sou quem se deva esperar, que me acabo antes à porta de um prostíbulo, Paris ou Buenos Aires, como um poeta deve acabar
– nunca te disse mas acho que não te posso deixar, detesto demasiado a tua poesia
– tu detestas toda a poesia
– na verdade não detesto toda a poesia, só tenho medo
– na verdade eu não faço bem poesia, só quando te escrevo ou te ponho nua
– já não fumo, escreve-me poemas que me possam matar

Carlos Soares

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Save me from my bad heart






del shannon | runnaway

We thought we could just roll and tumble,
live from song to song, kiss to kiss.

Song to Song, Terrence Malick



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

You do not have to love me








leonard cohen | bird on the wire

You do not have to love me
just because
you are all the women
I have ever wanted
I was born to follow you
every night
while I am still
the many men who love you

I meet you at a table
I take your fist between my hands
in a solemn taxi
I wake up alone
my hand on your absense
in Hotel Discipline

I wrote all these songs for you
I burned red and black candles
shaped like a man and a woman
I married the smoke
of two pyramids of sandalwood
I prayed for you
I prayed that you would love me
and that you would not love me

Leonard Cohen 

domingo, 17 de setembro de 2017

Happy birthday, parabéns











johnny cash | heart of gold

vezes por ano celebramos o aniversário dos mortos miramos os seus retratos, mas vemo-nos a nós num espelho tão cruel quanto carinhoso
mais velhos um ano, eles, e nós
mais próximos do nosso último retrato
oh sim, fazemos anos nos mesmos dias

happy birthday, parabéns
pode-se continuar morrendo pela eternidade

Bénédicte Houart

sábado, 9 de setembro de 2017

Stripped to the bone










faith no more | stripsearch

Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa de minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar

Adília Lopes

domingo, 3 de setembro de 2017

Das trevas







depeche mode | suffer well

Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Hélder 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Estava frio no dia em que me trouxeste para casa, muito antes da invenção do sexo











jeff buckley | i know it's over

há sempre alguém acordado nesta cidade que se
alastra por vias férreas e automóveis de luzes baças a
caminho dos subúrbios. esta é a hora em que
não chegas. pontualmente, todas as tardes.
as saídas do metro expulsam multidões para os passeios,
a intervalos regulares, alinhadas depois para a partida em frente
à luz vermelha de um semáforo ou dispersando-se por
ruas secundárias a caminho de uma forma diferente de clausura.
e à décima primeira hora pergunto o que faço ainda aqui, olho
para o relógio, estava frio no dia em que me trouxeste para
casa, muito antes da invenção do sexo, quase tardia.
agora o inverno voltou, tento escrever o relato de um
náufrago enquanto espero que me salves, sem sucesso,
(não fui a primeira pessoa a quem isto aconteceu)
perdi tantos anos a aprender a usar as palavras
e agora nada tenho para dizer.

Tiago Araújo